sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Miguel Torga - 'Homem, Cidadão, Poeta'

Na quarta-feira, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, na Avenida de Berna, iniciou um Curso Livre sobre Miguel Torga - 'Homem, Cidadão, Poeta'. A primeira aula foi dada por Teresa Rita Lopes. Centrando-se nos Poemas Ibéricos, apresentou-nos uma leitura em contraponto com a Mensagem de Fernando Pessoa, na qual os heróis são exaltados e o além-mar visto como o caminho para o País recuperar a sua grandeza. Torga, pelo contrário, insurge-se contra esses heróis míticos, preferindo um Portugal telúrico, o da 'terra-firme', unido a Espanha, ele que se considerava um 'filho ocidental da Ibéria'. Para Torga a Nação era um corpo, mas para Pessoa era uma alma!

Deixo-vos com o programa, com esperança de que apareçam numa destas quartas, sempre às seis da tarde.


Outubro

17 A arte do conto em Miguel Torga - Lúcia Lepecki

24 O Brasil de Miguel Torga - Arnaldo Saraiva

31 O poeta - Fernando J.B. Martinho

Novembro

7 Torga e Nemésio: percursos cruzados Fátima Freitas Morna

14 Miguel Torga, Criação e Revolta - Teresa Araújo

21 O Diário de Miguel Torga ou a Melancolia de Portugal - J. A. Cardoso Bernardes

28 Torga Moralista: Fragmentos e pensamentos- Cristina Robalo Cordeiro

Dezembro

3 A ideia de poesia em Miguel Torga - V. M. Aguiar e Silva
Nota: A fotografia foi tirada pelo Pedro - um campo de azedas no Toxofal de Baixo

4 comentários:

Mário Pipopó disse...

Qualquer pessoa pode ir? Não é preciso pré-inscrição, ou assim?

Sofia disse...

Sim, podem a aparecer... quem vai sempre e se inscreveu receb um certificado, mas os outros podem ir só para assistir. beijinhos

Pedro disse...

Muito importante, nesta primeira sessão, o elogio por Torga das coisas palpáveis. Particularmente comovente a desmistificação de Santa Teresa de Ávila, falando já do esquife. Uma ode, a meu ver, à mulher que vive a vida completa. Ou um lamento às que não...

SANTA TERESA

Terra...
Era em Ávila da Ibéria a minha terra...
Terra!
Mas eu não vi a terra que me teve!
Nem lhe dei o calor que um filho deve
A sua Mãe!
Terra!
Nem lhe sabia o nome verdadeiro!
Nem a cor! nem o gosto! nem o cheiro!
Nem calculava o peso que ela tem!

Terra...
Vai-se embaçando o brilho dos meus olhos!
Apodrece o tutano dos meus ossos!
Crescem as unhas doidas nos meus dedos
Contra a palma da mão encarquilhada!
Medra o livor em mim de tal maneira
Que me babo de nojo do meu nada!

Terra!...
E andei eu a morrer a vida inteira!
E andei eu a secar a seiva da raiz
Que do Céu ou do Inferno me prendia
A ti, humana terra de Castela!
Terra!
E andei eu a viver a morte que vivia
Disfarçada em amor na minha cela!

Terra!...
E andei eu a negar o amor do mundo,
Quando de pólo a pólo o meu amor podia
Ser sem limites como a alma quer!...
E ser fecundo como a luz do dia!
E dar um filho, porque eu fui mulher!

Terra!...
E andei eu a legar este legado:
“Vivo morrendo primeiro”,
Derradeiro Castelo a que subi!...
Terra...
E Deus, que prometeu ter-me a seu lado,
Tem-me aqui.

Sofia disse...

Um apelo à vida bem vivida... e à vida primeiro, antes da morte enclausurada!

Beijinhos e obrigada pelo poema