quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Parto sem dor

Cais é onde tudo chega e de onde tudo parte!


Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessôa
Que fôsse misteriosamente minha.
Álvaro de Campos - Ode Marítima

Há um ano foi o meu dia de chegar, hoje o de partir.

Parto dentro de momentos, mas parto sem dor, talvez apenas com a sensação da saudade que fica de um porto onde chegava quase todas as manhãs, para partilhar a luz do dia, o pôr-do-sol de ontem ou a magia dos olhares com que me cruzo pela vida.
Desenhar com as letras as emoções, as viagens, os cheiros e as cores de um jantar à luz das velas, de um momento à beira-mar, de uma paisagem que fica a pairar por detrás dos nossos olhos, horas sem fim.
Sonhos perdidos, desejados, conseguidos. Altos e baixos, saltos e quedas, mãos que nos levantam, braços que nos consolam, sorrisos que se rasgam para partilharmos os mundos.
Continuarei a aportar noutros cais que fui conhecendo e que são verdadeiros portos de abrigo, onde me deixo passear, mas este vai estar encerrado. Talvez volte um dia, quem sabe, para um novo cais, com uma nova maré... mas agora é tempo de outras partidas, de outras descobertas.

Cais das Codornizes (XIV)



O cais faz um ano. Parece mentira... mas é verdade e, porque o é, apetece-nos festejar. A banda sonora não podia ser mais apropriada. É de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos e merece vozes à altura da música e da letra, preciosas. A Sofia oferece-vos Elis Regina, o Pedro escolheu o próprio Milton com Simone. Liguem o player e que cada um invente o cais onde gostaria de deitar âncora!




Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar

segunda-feira, 29 de setembro de 2008


Adormece aqui.


Vem de mansinho deitar-te a meu lado, cai em meus braços largando pedaços de beijos e mar. Deixa vir o sol, que nos aquece e o vento que nos enlaça na calmia da maré. Deixa ser o dia qualquer que vai chegar, deixa ser manhã, para adormecermos de novo entrelaçados.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Ainda a pensar no verão...

Apesar de o Outono ter chegado, ainda guardo os desejos das tardes quentes de verão, dos passeios à beira-mar e de um pôr-do-sol que não me canso de reinventar.


Our last summer

1800

Pastelaria 1800 - Largo do Rato, Lisboa


Já não bastava já não podermos ter a tua casa como companhia dos jantares de Domingo - onde o teu lugar estaria sempre reservado, à espera que nos contasses a idade da terra ou as histórias da História -, ainda te mudaram a casa onde almoçavas.

Já lá vão quase dois anos e nunca mais consegui ali entrar.

Sempre que passava à porta, espreitava a ver se lá estarias de pé, ao fundo do balcão, a almoçar pão com queijo, um croquete e água. Mas, como nunca mais te vi, nunca mais entrei. Nunca mais parei para comprar um gelado, comer um bolo ou até tomar café. Já passaram dois Natais e nunca mais lá voltei para as azevias de batata doce. Tu não estavas, eu não entrava.

No outro dia, decidi que era hora de lá ir. Ocupar o teu lugar e pedir o que me apetecesse. Mas estava fechada para obras. Ironias da vida, esperara a minha coragem e fechara na véspera. Esperei que reabrisse, sem grande curiosidade de ver a casa nova. Hoje, porém, deram-me coragem e lá fui. Olhei primeiro, para ver se estavas. É um hábito que todos temos, sabias? Olhamos sempre à espera que lá estejas. Mas o teu sítio já não está lá, o balcão já não faz curva. Cheguei-me mais à ponta, esperei que o mesmo senhor de sempre me viesse servir e olhei à volta - já não era nossa casa! Café, só café e uma vontade de sair dali. Deitaram paredes abaixo, mataram-lhe os espíritos que por lá andavam e, com eles, o teu. Não sei se ainda hei-de procurar-te quando lá passar, não sei se hei-de esperar ver-te, se hei-de parar para um gelado dos mais caros... valeu a companhia de muitas das nossas conversas de almoço e a surpresa de um travesseiro à minha espera.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

OUTONO

Nem parece que ele chega agora...


Por montes e vales, ravinas e prados
Ressoa o pranto da terra
Em despedida do verão ameno.

Que mais podem fazer os altos ramos
Das frondosas árvores?

E como pode o pranto cessar?

Thomas Nicholson
(Tradução de José Domingos Morais )

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Preguiça de voltar


Voltei de férias, mas a cada fim-de-semana ainda volto à ilha, para acordar com o burburinho do mar.

Regressei cheia de preguiça e anseio pelas tardes de sexta-feira, em que parto sem dor para longe do rebuliço desta cidade.

Quero ficar longe, na acalmia, deixar-me perder horas sem fim entre mergulhos e marés.

É esquecer que a nortada impera e esconder-me numa Praia das Cebolas, abrigada do vento, povoada de rochas que teimo em saltar, sem nunca cair. É sentar na rocha desenhada como um banco e esperar que a onda venha salpicar-nos.

É acordar cedo, mesmo quando a noite foi até ser dia, e deixar-me levar para a praia, adormecer num colo, numa barriga e esperar que a minha me acorde a dar os bons dias.

É ficar a ver a maré descer e subir, como se as horas não passassem por nós, como se mais nada importasse... e, realmente, nada mais importa.

É esperar o pôr-do-sol e ir vê-lo na esplanada, porque ele já se põe para lá da Papoa. Esperar que a noite caia, por um jantar de muitos. Adormecer de cansaço e acordar refeito, horas depois, para mais uma dança, mais uma tosta, gargalhadas. E, quando já for quase dia, partir em busca de um petisco para uma barriga ainda enérgica, quando as pernas já não aguentam mais.

É chegar a casa, deitar e adormecer... umas horas, poucas, que lá fora o sol já nasceu e com ele, o mar, a areia e os sorrisos de quem nos espera à beira-mar.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Regresso a casa


mas ainda sinto no ar um desejo de ficar na ilha, de atravessar o mar e entrar no pôr-do-sol.

São sempre assim as últimas tardes, na praia até o sol desaparecer atrás das casas e nós todos corrermos para trás delas em busca dos raios que ainda restam. Esperar que a noite caia e esquecer o frio, o vento norte, a humidade que teima em cair. Sentar na rocha e esperar só que aquele momento eterno acabe e nos leve a casa, ao trabalho, ao mundo...

E ficar entre as recordações do marisco dos últimos dias, os últimos mergulhos como se não mais houvesse mar, os desenhos na areia a eternizar desejos, as toalhas já duras de tanto sal e os corpos dourados de quem foi quase peixe no mar, os beijos e abraços de despedida que em tempo nos levavam às lágrimas, um 'até para o ano', 'vemo-nos por aí'... ficam a saudade e a certeza de que voltaremos outra vez!

Chegou Setembro.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Agosto

Volto em Setembro



AGOSTO

Em tardes como esta o mar é uma
bênção,
o gesto azul de um deus,
a memória de um tempo sem tempo.

Em tardes como esta cada instante
sabe a eternidade
e o horizonte, este horizonte
é um sinal do que ainda pode ser
isso a que chamam beleza:
uma onda que nasce enquanto outra
morre desfeita em espuma
levando atrás de si o nosso medo,
a nossa esperança demasiado humana,
o pacto que selámos e quebrámos
com os sonhos mais antigos, os que um dia
foram apenas nossos,
mas são agora o mar, sem nome nem
destino,
coisas que vão e fingem regressar
mas já não nos pertencem.



Fernando Pinto do Amaral

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Banda sonora da biblioteca


Cheap Trick- I want you to want me

Hoje, lembrei-me desta...

Janet jackson - Together Again

terça-feira, 5 de agosto de 2008

PLANTA ALTA E TRIGUEIRA


As plantas acenavam ao vento de agosto, nas suas hastes finas e verdes. E disse-me a mais faladora de todas, alta e trigueira:

- Dás-me dez anos da tua vida?

Eu só tenho cinco anos, pus-me a contar pelos dedos, vi que ia ficar com muito pouco.

- Dou - disse eu.

E ainda hoje, que nunca mais soube de mim, vou com o vento, balouçando. E agosto é todo o ano para mim.

Ruy Belo

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Bom fim-de-semana...


Espera-me a areia quente no fim do dia, recebe-me o poente a cair na imaginária linha horizontal.
Entrego-me à noite, ao murmúrio do mar, e anseio o amanhã de maresia, passeio à beira das ondas, até ao longe, onde as rochas são poucas e o areal deserto, onde seremos um só, entrelaçados na pureza da maré.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

The Story

Estou apaixonada por esta história...


Brandi Carlile - The Story

terça-feira, 29 de julho de 2008

La maternidade - Baltasar Lobo

Faço-te um berço e guardo-te nos meus braços, quando te seguro no ventre. Pontas dos dedos que procuram desvendar cada parte do teu corpo - um pé, uma mão, a cabeça.

Desenho-te um rosto imaginado, uma pose possível e fico apenas a contemplar-te por detrás da pele que ainda nos separa. Estendo-te a mão e vens ao nosso encontro. Canto-te para adormeceres e navegas no mar onde ainda pertences. Jogas ao toca-e-foge, para um lado, para o outro... até cairmos no sono mais profundo, onde os nossos sonhos se encontram. E assim ficamos até ao amanhã, num abraço fechado, até despertares num soluço matinal.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Esperança

A um amigo...


"Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!"
Mário Quintana

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Tempo

O tempo perguntou ao tempo, quanto tempo o tempo tem.
O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.
Tempo de chegar e de partir

tempo de ficar, suspender

tempo de sonhar e voar dentro do próprio tempo

tempo de viver... dia, noite, manhã

tempo de agora, de hoje... o instante

tempo de desejo... dar-se ao vento

tempo de anseio... prender a âncora

tempo de silêncio, de solidão... o vazio

tempo de luz... duas mãos dadas

tempo que passa, vem, volta

como as noites de luar

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Apontamentos


Cada minuto é apenas um momento musical, sem memória. E a saudade não vem de longe, é como uma cor outonal na paisagem e muda como um poente...Não há futuro. Tudo é paisagem para os nossos olhos calmos e líricos. Sentimos a intimidade das coisas impossíveis.


Cristovam Pavia

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Paternidade (1)

Ao Tiago e ao António.
Joanne Swansborough
Generations of Love: Father and Son


Nota 1: Depois de uma promessa antiga a um pai muito especial, aqui fica o primeiro número da rubrica Paternidade!

Everybody knows...

Era uma tarde de pôr-do sol.
A lua quase cheia e a brisa do mar.

Realização de um desejo de anos sem fim... talvez desde as primeiras tardes de lareira, de snooker, de terraço, enrolados em mantas num Inverno sempre frio, ou em fins-de-tarde com outro pôr-do-sol no mar da Berlenga! Talvez um desejo mais longínquo de um Fevereiro ainda dentro de uma barriga, enquanto alguém já implorava para ir...

Vinte e três anos depois, o desejo fez-se realidade e as danças saltaram entre braços e abraços, com uma redonda barriga saltitante pelo meio.

Momentos perfeitos!



(Leonard Cohen - Famous blue raincoat - 1979)

A música que faltou!

Desejos...

O que me apetecia hoje...


Peixinhos da horta


Faça um polme com farinha, água, sal e um ovo. Bata muito bem. Arranje o feijão-verde, não o corte e passe-o por este polme, de todos os lados. Frite em azeite bem quente.

Alfredo Saramago, Cozinha Algarvia

Voltei...

Depois de duas semanas de 'férias à força'...

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Pausa

Depois do Domingo de Aleluia... em pausa até ao próximo Domingo.

Leonard Cohen - Hallelujah

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A dez dias de uma valsa

Ele vem aí...


Leonard Cohen - Dance me to the end of love

terça-feira, 8 de julho de 2008

Desenhando sorrisos

Desenhando sorrisos,
construindo pontes,
entrelaçando os braços,
balançando numa melodia de beijos.




Rita Lee - Doce vampiro

No escurinho do cinema

Faz hoje uma semana que ela veio a Lisboa e eu estive lá!
Andava ansiosa com as horas de dança que me esperavam na arena do Coliseu - assim foi!
Dançar desde o primerio Flagra até ao Lança Perfume!

Flagra no Coliseu de Lisboa, 1 de Julho 2008

Melodia matinal


Daniela Mercury - Pensar em você



É só pensar em você
Que muda o dia
Minha alegria dá pra ver
Não dá pra esconder
Nem quero pensar se é certo querer
O que vou lhe dizer
Um beijo seu
E eu vou só pensar em você


Se a chuva cai e o sol não sai
Penso em você
Vontade de viver mais
Em paz com o mundo e comigo

segunda-feira, 7 de julho de 2008


Regresso a casa...

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Férias

Chegaram as férias...

Se eu voltasse a nascer, e
as minhas mãos me ensinassem o caminho
que vai do coração ao mundo, e
os meus olhos me abrissem o círculo
que o mar desenha no horizonte,
e o meu nariz respirasse a luz que a manhã
solta de dentro da névoa, e os meus lábios
pedissem o pão de estrelas que as aves
trocam entre si, e os meus passos me conduzissem
para onde ninguém precisa de voltar,
o tecido da minha vida seria transparente
como o vidro da janela que não abro,
o fio que vou puxando seria eterno
como os números que contam os dias de um deus,
a tesoura da noite ficaria na caixa
que não precisei de abrir. Se eu voltasse
a nascer, e as velas do sonho me envolvessem
com o linho do seu vento.
Viagem, Nuno Júdice
Volto dia 6 de Julho

Éme de Mãe



Afinal o coração de mãe não é só um músculo que bate sem parar.


É um lugar mágico onde acontecem as mais extraordinárias das coisas...


O coração de mãe está ligado a cada coração de filho por um fio fininho, quase invisível.


É por causa deste fio que tudo o que acontece aos filhos faz acontecer alguma coisa dentro do coração de mãe.


Coração de mãe, de Isabel Minhós Martins, com ilustrações de Bernardo Carvalho

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Agarra-me esta noite...

A música que me apetece cantar...


Pedro Abrunhosa - Parte de Mim

Onde estiveres, eu estou
Onde tu fores, eu vou
Se tu quiseres
Assim,
Meu corpo é o teu mundo,
Um beijo um segundo,
És parte de mim.

Let´s dance!

Para não dizerem que eu ando às avessas com o mundo e que o meu olhar anda menos brilhante... estou quase a chegar à saída do Labirinto, só mais um dia!
Let's dance que amanhã o dia é meu!
(eu prometi avisar os mais distraídos!)


(Shakira feat. Wyclef Jean - Hips Don't Lie - Live at Grammy)

terça-feira, 24 de junho de 2008

Labirinto

Não perguntes, que eu não respondo.
Não me olhes, que eu não sei o que dizer.
Não me digas nada, que eu não sei o que fazer!




(...)
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio, Cântico Negro

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Mi abanico

Já não saio de casa sem ele..Há tantos modos de se servir de um leque que se pode distinguir, logo à primeira vista, uma princesa de uma condessa, uma marquesa, de uma routurière. Aliás, uma dama sem leque é como um nobre sem espada. (Madame de Stäel)

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Fugir


Salomé de Bahía - Outro Lugar


Às vezes é o que dá vontade - fugir para bem longe!

Fugir daqui, de qualquer lugar, para lugar nehum.

Deixar para trás o mundo, o céu e as estrelas, levar o amor e a brisa do vento.

Partir sem bagagem, esquecer aquilo que dói, aqueles que magoam e desiludem.

Virar as costas ao mundo, rumar ao pôr-do-sol e ancorar o barco num qualquer porto distante.

Verão

Amanhã chega o Verão. Os dias param de crescer, mas o sol ainda continua a cair tarde. Gosto desta época do ano, dos meses de Maio, Junho e Julho. De sair de casa cedo (nem pareço eu!), passear com a brisa da manhã, ir à praia, enterrar os pés na areia quente, correr para os mergulhos nas ondas frias e passear à beira-mar, entre os meus pensamentos perdidos.

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...


(Alberto caeiro - Num dia de Verão)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Frase do dia


"Um radical é um homem com os pés firmemente plantados no ar"

Franklin Roosevelt

quarta-feira, 18 de junho de 2008

50 anos de bossa nova

A minha batida de hoje é bossa nova.
O ulular das poesias e dos sons.


Chega de Saudade - João Gilberto e Tom Jobim
Dentro dos meus braços, os abraços
Hão-de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim


Samba do Desafinado - Tom Jobim e Nara Leão

Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados
Também bate um coração

Redescobrir sempre

O que me apetece aprender hoje

Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Ricardo Reis, Odes

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Diário de viagem

Ilha da Armona (fotografia encontrada aqui.)
Passeio num barco, nadar entre-ilhas, boiar ao sol e deixar-me levar pela brisa do vento que deixo correr. Banhos de sal à beira-mar nas línguas de areia, que contornam as cidades redescobertas nas ruas estreitas.

Perder-me de cansaço em coloridas mesas de jantar, entre mariscos apanhados na manhã dos pescadores. E adormecer com o corpo quente do sol que nos banhou uma tarde inteira.

Passeios pelas sombras das ruas sevilhanas, de abanico na direita e rayas de gelados na esquerda.

Sonhos desenhados no céu desnudado das nuvens que às vezes nele pairam e ensombram; sonhos de um olhar perdido na tela azul, depois do mergulho ansiado.

Pores do sol nas varandas viradas para o horizonte sem limite e desejos de parar o tempo e eternizar o momento, num canto uníssono.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dia de Pessoa

Fernando Pessoa
(13 de Junho de 1888 - 30 de Novembro 1935)


Aprendi a sabê-lo quando ainda era pequenina e juntava as letras às duas de cada vez - Mar Portuguez. Gostava das quadras populares, porque eram fáceis de decorar. Achava-o um louco complicado que se desdizia e dizia num só verso, numa só estrofe. Hoje, leio por paixão e entendimento dos versos que sei de cor, das palavras que me enchem quando estou mais avoada, perdida em confabulações.




Tabacaria, de Álvaro de Campos, por João Villaret
(roubado
aqui.)


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Noite de Santo António

Parto hoje para as terras do sul, para a ansiada viagem.
Bom fim-de-semana e que Santo António vos inspire.
Vasco Baltazar

Meu rico Santo António
Santinho do meu coração
Dá-me riqueza e saúde
Muita paz e muito pão.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Egoísmos

Às vezes, acho que sou assim...

... mas não gosto...

Egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos. (Oscar Wilde)

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Dá-me a tua mão

O intante de silêncio que hoje me apetece.


Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.



Clarice Lispector

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Serias tu?

(Encontrada aqui)

À S., doze anos depois
Encontrei o teu olhar vagabundo por detrás do castanho luzidio dos teus olhos, aqueles que ainda lembro dos nossos anos de meninice. Já nesses dias trazias o olhar adulto, portal de um coração ainda menino. A tua pele escura e os modos em tudo diferentes dos nossos, mais bruscos, mais revoltos, pouco habituados às meiguices da infância que sabíamos não teres tido, traziam as marcas de uma história em que o 'final feliz' não parecia para breve. Eras a heroína de uma vida que cedo virias a perder, ao perderes-te pelos caminhos que não te souberam ensinar.

Abandonada no berço, criada entre tantas iguais a ti, menos bonitas, bem recordo, mas iguais na revolta, na mágoa e na vontade de largar tudo e fugir. Assim fizeste e logo te perdemos o rasto. Ainda te viram, anos mais tarde, de criança ao colo, ainda menina como nós, a pedir à porta da igreja. Quando cheguei, já não estavas lá. Vives fugitiva entre mundos, escondida dos que te querem apanhar e nada te souberam dar quando pediste. Vida cruel a tua, menina abandonada à sorte de quem te quisesse adoptar, pegar ao colo e tomar-te como filha. Mas tinhas o rosto escuro de mais, a pele quase negra e um jeito de cigana que dizias ser a tua má sorte.

Abandonou-te também a vida e largou-te na rua, a sustentar com o próprio corpo ainda menino, tão pequeno como o nosso, uma vida vulgar e infeliz.

Hoje, não sei onde vives, o que é feito de ti... mas, no outro dia, naquela rua fria, naquela sombra do outro lado da rua, quase tenho a certeza que eras tu. Não trazias mais o sorriso nem o brilho do olhar. Apenas esperavas, com ar exausto, que alguém te encontrasse, que alguém te levasse e te pagasse mais umas horas de vida.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Onde será, será?


Onde te levo eu?

Tem o cheiro a maresia e as revoltas marés;

tem as nuvens da cor do mar, da chuva, do areal ou do céu,

num imprevisível estado de graça;

no ponto onde o sol se põe a a noite começa,
a lua sobe a pendurar-se entre duas estrelas de luz.
Onde será?

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Sofia doente!

(Anita doente)


Estive dois dias de cama, com febre e uma constipação daquelas que dá vontade de arrancar o nariz e seguir caminho.

No primeiro diam, ainda me aguentei na solidão da minha casa, tentando recorrer à companhia de uma televisão que, mesmo tendo trezentos canais, não passa nada de interessante, uma internet que teimou em estar em actualizações logo naquele dia e uma Mulher certa da qual não conseguia ler mais de duas linhas seguidas, quase parecia estar a sofrer de lagrimite aguda! Resolvi passar o dia ao telefone, a matar saudades desta e deste, marcando cafés e almoços, ou apenas matando saudades das vozes amigas. A verdade é que sou uma má doente: fiz greve de fome e amuei no sofá, esperando que 'alguém' (se não fosses tu, o que seria de mim?) me trouxesse morangos e cerejas, para satisfazer os meus apetites!

No dia dois já não aguentei. Fui para casa da minha Mãe. Tinha saudades do tratamento VIP dos dias em que ficava doente, quando era pequenina. Escolhia a ementa, encomendava tostas mistas, chás diversos... todo o serviço sem sair do sofá! Escravizava as minhas pequenas pestes! E assim fiz. Aterrei lá pela manhã e só saí depois do jantar. Vi uns filmes, dormi umas sestas... Quando cheguei, já havia o jornal do dia, pão fresco e aquelas coisas que a minha Mãe tem sempre em casa e que eu adoro! Sobretudo, tinha sempre com quem conversar e, melhor do que tudo, quem me fosse buscar a 'qualquer coisa' que me apetecia a cada instante! (sou horrível!) Estava doente, precisava de mimos!

Era sempre esta alegria quando alguma das 'princesas' ficava doente! As outras instalavam-se ao lado, a ver se também lhes calhava uma gripe e uma boa dose de mimos, nos dias seguintes. Nesse dia não púnhamos a mesa, não ajudávamos nada... era dia de descanso, era o nosso dia. E que bem me soube aquela dose reforçada de mimos! Claro que há coisas que não mudam nunca, não me livrei de ouvir:

- Sais sempre de casa com o cabelo molhado.
- Andas sempre descalça pela casa.
- Não precisas de andar à chuva.
- Não sei para que compras tantos casacos, deves achar que estamos no Verão!


O de sempre, o que sei de cor, mas que ainda hoje me faz rir e que, às vezes, me traz tanta saudade dos dias em que ficava doente e podia passar o dia na cama dos meus pais a ler os meus livros, a comer as minhas bolachas preferidas e a jogar ao 'peixinho.' Foi à procura desses dias felizes, num passado que me parece tão distante, que ontem saí de casa... e acreditem - encontrei!

O engraçado é que a companheira da minha gripe de ontem está hoje engripada e é a princesa lá de casa, com os mimos todos para ela... não crescemos nunca! Ainda bem!

sábado, 31 de maio de 2008

Poema de Sábado

(escultura da maternidade)


LETTERA AMOROSA

Respiro o teu corpo
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 30 de maio de 2008

...como sou...


sou como sou e nada sou
inteiro, partido
repartido
um rabisco, um rascunho
perdido
entre a tela e o pincel

Eu queria ir...

... e ainda não perdi a esperança!

terça-feira, 27 de maio de 2008

As artes do poema


UM POEMA

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

Miguel Torga, Diário XIII

Embirro solenemente com...


Pede-me a minha amiga Cleo, do Páginas, que confesse algumas das minhas embirrações de estimação. Não sou de grandes embirrações, mas há umas que quase me causam urticária.

1) As tunas a cantar A mulher gorda, dentro daquele terrível traje e naquelas cerimónias, com os caloiros a lamberem-lhes os pés e as capas mais porcas do que sei lá o quê... fico doente!

2) Embirro com os programas de opinião pública, já que é raro alguém dizer alguma coisa que valha a pena ouvir... perda de tempo!

3) Embirro com as conversas de sala de espera do consultório, de paragens de autocarro, de jeovás que nos abordam na rua: A menina gosta de ler? Eu sou a luz na sua vida... Respondo sempre que sou analfabeta! Não tenho paciência!

4) Não aguento a incompetência e falta de educação em supermercados, restaurantes e cafés. Protesto sempre, reclamo! A educação é bonita e eu gosto!

5) Não aguento faltas de respeito pelas pessoas que têm lugares prioritários no autocarro, no comboio ou no metro! Porque de repente, quando eu entro, todos lêem o jornal, fingem que dormem, abraçam-se às pernas e queixam-se das maleitas todas e eu é como se não existisse! Se os motoristas guiassem bem, ainda se aceitava, mas no autocarro quase voo de uma ponta à outra! O mesmo se passa, quando chego a uma caixa prioritária, no supermercado, avanço para ser atendida e alguém reclama, atrás: Se não pode esperar na fila, não venha às compras!, quando aquela caixa me dá prioridade e há outras que não dão! Ainda não me comecei a rebelar, mas dêem-me mais uns dias...

6) Embirro com a X, com a Y e com a Z e com o M, o H e o B. Bem sei que às vezes chego a ser desagradável, mas não sou capaz de o esconder... é mais forte do que eu! Porque não aguento engraçadinhos, armados aos cucos, mal educados, mesquinhos, falsetes, pretensiosos, enjoadinhos, maldosos...

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Hasta luego!

(Fotografia de PC)
Fujo para o paraíso perdido, uma casa no campo, sonhando com longas horas de passeio pelos montes e vales, piqueniques na barragem, tardes de leitura debaixo de qualquer uma árvore, ou mesmo deitada no tronco que parece ter-se dobrado à medida do nosso corpo (será que ainda cabemos?). E os fins-de-tarde em cima do telhado, à espera que o sol se ponha para lá do pomar de peras, ao longe, muito longe, naquela linha imaginária! Para recolher à braseira e ficar a ver os filmes que alugámos no clube de vídeo da vila, para ficar a ler, para conversar com quem bate à porta, para dormir a sesta e repousar o corpo dos ares do campo ou aceitar um convite para jantar.

O acordar com o galo, com o sino da igreja, com a luz que teima em espreitar por entre as portadas que já não fecham bem, por umas janelas que deixam passar o frio da manhã! Os cães a saltar quando chegamos ao pátio, quando queremos é estar à mesa de um pequeno-almoço já preparado, o sumo da laranja apanhada no pátio, o pão que alguém nos deixou na porta e um primeiro banho de sol matinal ainda, de pijama. Está frio, às vezes chove e ficamos na lareira ainda apagada, da preguiça de ir buscar lenha, de ir acendê-la, mas onde já toca um disco de vinil, que nos obriga a levantar tantas vezes, para virar, para trocar! Enrolada numa manta da Serra da Estrela, daquelas que pica na pele, como se ainda fôssemos meninas e o fizessem as saias de fazenda! Deixo-me quase sempre adormecer, perder no periclitar da lareira, na preguiça de deixar o disco parado sem que ninguém o vá girar.

Sair de casa, só para ir à praça, à mecearia, buscar a fruta que não temos, os legumes que queremos saltear numa frigideira antiga, que pega sempre, para comermos no alpendre, sem pressas. No talho, a melhor carne, que servirá de jantar, talvez um churrasco, para quem quiser aparecer e sentar-se a uma mesa onde há sempre lugar para mais um, dois, os que vierem. E as noites de ginginha e cartadas na biblioteca, a meia-luz, onde acabamos muitas vezes zangados, entre tantas batotas, como se ainda fossemos meninos de escola e roubássemos dinheiro no Monopólio!

Esperar que a noite acabe e deixar que o amanhã chegue mais tarde, ficar numa ronha de pequeno-almoço na cama, visitas no quarto no alto da 'torre' para dois dedos de conversa, preguiçando num meio-dia ainda não levantado! E como demoram essas manhãs, como parecem eternas.

As tardes passam devagar, como se os ponteiros do relógio não andassem, nos saltos à praia, às vezes em demorados passeios à beira-mar, quase sempre terminados num fim de tarde de marisco e no voltar a casa com a certeza de que a felicidade é esta sensação e que amanhã ainda andará por aí!

Hoje é dia de partida. Malas feitas, é só esperar a hora de saída, o salto para o carro entre desejos de ainda ver o pôr-do-sol à beira-mar.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Embalada em ternura

Foi uma noite belíssima, num concerto a meia-luz. Apesar do som e da idade, cantámos para aquele sorriso que há muito nos enternece e com aquela voz que dá a mão a tantos momentos importantes na nossa vida! Ontem, deixámo-nos levar pela onda de lárararás que surgiam entre um público tímido, que apenas sorria. Foi uma noite de ternura, de aplausos e de recordações de tantas vezes, tantas, que o cantámos por aí! Acorda-se com o embalo de Le temps de vivre e com desejos que hoje fosse ontem, para que esta noite se vivesse outra vez. Agora que ele canta apenas na telefonia do carro, dando banda sonora ao dia chuvoso e de olhar triste, fica a esperança de que um dia volte ao palco e que quem ontem 'nadou' possa amanhã dançar a sua preferida: Bahia.




Nota: Com esta música, deixo a minha homenagem a Zélia Gattai(São Paulo, 2 de julho de 1916 — Salvador, 17 de maio de 2008), uma baiana por amor!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Cais das Codornizes (XIII)


Hoje é o dia por que esperamos desde Janeiro - o do concerto de Moustaki no CCB! Dizem as 'más línguas' que está velho e canta mais devagar, mas acreditamos que conservará toda a magia das suas músicas! Passado um fim-de-semana a recordar as músicas da nossa vida, entre viagens para aqui e para ali, hoje vai ser ao vivo, um reviver em gestos, em olhares, um poeta de cumplicidades, de fins de tarde espalhados pelas viagens ou em terraços altos nos fins-de-semana. Esperamo-lo vivo, enérgico e com aquela voz a que nos habituou, num concerto que nos vai ficar a pairar na memória por muitos anos. O Cais recorda o concerto no Olympia, em 2000, e o codornizes o do Dejazet, em 1987, com a música Il est trop tard. Mas nunca é tarde para ouvir Georges!

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A próxima viagem


Quase tão fascinante como a viagem em si é o planear da viagem. Andamos com borboletas na barriga até chegar o grande dia e quase não dormimos de véspera. Consigo manter a ansiedade que tinha em miúda, o contar dos dias, riscando os que já passaram no calendário. E posso passar horas a pesquisar sobre o destino. Acho que aprendi essa´arte' com o meu pai e com o meu avô! Não sou tão pouco flexível como eles, mas quase tão organizada. Aprendi de miúda, nas viagens de Verão e de Inverno, de carro, os cinco, a conhecer Portugal e Espanha! Uma história aqui, um museu ali, uma Sé acolá, sempre com datas, lendas! Eram estafantes, mas hoje sabemos que valeu a pena e temos saudades!

A alegria de um dia como o de hoje - em que se toma a decisão, marca-se o dia e os destinos e começa-se a pesquisa - é inexplicável, mesmo quando a paragem final é mesmo aqui ao lado!

O próximo destino será a Andaluzia, na Espanha da minha paixão. O pretexto é um concerto em Cádis, mas mais dias serão para poder rever paraísos, reencontrar sabores, paisagens e descobrir novos portos de abrigo. As viagens por Espanha têm sempe o sabor de 'saltimbanco louco' e o ritmo alucinante de quem não quer perder nada. Nas noites que antecedem os passeios são folhas A4 espalhadas pela cama, numa organização de roteiros gastronómicos, passeios a não perder e histórias a saber. Voltamos cansados, mas refeitos, depois de uma viagem de descoberta. A juventude ajuda a que as noites sejam longas e os dias muito preenchidos. Paragens nas paisagens que ficam na memória, como quando uma nuvem desenhou uma gaivota num pôr-do-sol em Monfragüe. Paragens no cimo dos montes, nas pousadas dos parques naturais, para um chá que aquece a alma e dá força para uma légua mais, nas esplanadas das Plazas Mayores, para um café que nos dá saudades de Portugal ou para umas tapas que nos caem sempre bem, num merecido descanso num banco de jardim, em faróis no fim do mundo a contemplar o mar que desenha só para nós um cenário de paraíso e nas praias onde quase nunca é Verão e que são, quase sempre, só nossas!

Levamos a casa às costas, a literatura por companhia e a força de quem quer ver mais e mais. Desta vez, levo a ansiedade de uma noite de concerto, desejos de gelados de leite condensado no Rayas, em Sevilha, das patatas bravas em nada iguais às tradicionais, mas maravilhosas, em El Puerto de Santa María, rodeadas de muito marisco fresco e de peixes maravilhosos, reencontros com as memórias de um passeio frio, ao fim de uma primeira tarde de Dezembro na Baía de Cádis, ou de uma estátua de Albertí, de quem comprei, depois, uma memorável antologia, em jeito de primeira cumplicidade.

Falta pouco menos de um mês, mas já entrei em contagem decrescente!

Galope
Las tierras, las tierras, las tierras de España,
las grandes, las solas, desiertas llanuras.
Galopa, cabbalo cuatralbo,
jinete del pueblo,
al sol y a la luna.

! A galopar,
a galopar,
hasta enterrarlos en el mar!

(...)
(Rafael Alberti in Capital de la Gloria, 1936/38)



(Pedro Guerra - Contamíname)

Nota: Dedico esta entrada à Madrinha, que me apresentou este 'cantautor', pretexto da minha romaria!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Desejos de azul (ficção)

Desejos de nada, de maresia e solidão.

Desejos de não-beijos...

- Para ali, para ali, não quero estar aqui!

Desejos de partir, saio sem fazer barulho, sem se ver, sem deixar rasto.

Páro de ler, de escrever, de analisar a vida a mílimetro, não dou um passo sem a sombra dos teus.
Ai! quero sair, esconder-me, para largar num voo de rapina e cair no mar, a boiar numa jangada sem norte!

Desejos de voltar para ainda te amar.
Nota: escrito à beira-mar em Novembro 2007.

Eu em meia dúzia de palavras

Mujer en la ventana (Salvador Dalí)

Pede-me o RAA do Abencerragem que me defina em meia dúzia de palavras e numa imagem. Pois aqui está:

Sou o sorriso e o brilho nos olhos quando os dias são de sol e de maresia; sou o silêncio e o olhar perdido quando pairam as nuvens. Sou um veleiro que navega em alto-mar, saltitando de cais em cais, numa teimosa busca de aventuras apaixonantes.

Passo o desafio à Rosarinho, à Ana, à Cleo, à Sammia e à TCL!

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Vou de viagem


De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

(Sophia de Mello Breyner Andresen - Mar)


O fim-de-semana vai ser assim, na minha janela à beira-mar.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Memórias de fim de tarde


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma.
Do mar que cantava só para mim.
(Sophia de Mello Breyner - As ondas)

Ontem, o fim de tarde foi de passeio nas curvas da serra, de travesseiros e de mar. Há dias em que acordo com desejos da beira-mar, do cheiro a maresia a entrar pelas janelas quando se abrem de par em par. Sei que vai ser assim no fim-de-semana, que o mar vai estar mesmo por baixo da minha janela, que vou adormecer embalada pelo bater das ondas nas rochas, acordar com o canto da brisa matinal. Mas ontem desejei esse sabor e fui procurá-lo! Passear pé ante pé à beira-mar, às vezes correr fugindo das ondas que rebentam ferozes e se deitam a nossos pés! Deixar ali o meu cansaço e levitar! Regressar a casa, deixar para trás o mar, as ondas e as marés, mas trazê-los desenhados em leves gotas nos pés e grãos de areia brilhantes nos sapatos.
Nota: Obrigada às minhas companhias do passeio, por satisfazerem os meus caprichos!

Minha Pátria é a Língua Portuguesa


MANIFESTO

EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA

CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO


(Ao abrigo do disposto nos Artigos n.os 52.º da Constituição da República Portuguesa, 247.º a 249.º do Regimento da Assembleia da República, 1.º n.º. 1, 2.º n.º 1, 4.º, 5.º, 6.º e seguintes da Lei que regula o exercício do Direito de Petição)


Ex.mo Senhor Presidente da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Presidente da Assembleia da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Primeiro-Ministro


1 – O uso oral e escrito da língua portuguesa degradou-se a um ponto de aviltamento inaceitável, porque fere irremediavelmente a nossa identidade multissecular e o riquíssimo legado civilizacional e histórico que recebemos e nos cumpre transmitir aos vindouros. Por culpa dos que a falam e escrevem, em particular os meios de comunicação social; mas ao Estado incumbem as maiores responsabilidades porque desagregou o sistema educacional, hoje sem qualidade, nomeadamente impondo programas da disciplina de Português nos graus básico e secundário sem valor científico nem pedagógico e desprezando o valor da História.

Se queremos um Portugal condigno no difícil mundo de hoje, impõe-se que para o seu desenvolvimento sob todos os aspectos se ponha termo a esta situação com a maior urgência e lucidez.

2 – A agravar esta situação, sob o falso pretexto pedagógico de que a simplificação e uniformização linguística favoreceriam o combate ao analfabetismo (o que é historicamente errado) e estreitariam os laços culturais (nada o demonstra), lançou-se o chamado Acordo Ortográfico, pretendendo impor uma reforma da maneira de escrever mal concebida, desconchavada, sem critério de rigor, e nas suas prescrições atentatória da essência da língua e do nosso modelo de cultura. Reforma não só desnecessária mas perniciosa e de custos financeiros não calculados. Quando o que se impunha era recompor essa herança e enriquecê-la, atendendo ao princípio da diversidade, um dos vectores da União Europeia.

Lamenta-se que as entidades que assim se arrogam autoridade para manipular a língua (sem que para tal gozem de legitimidade ou tenham competência) não tenham ponderado cuidadosamente os pareceres científicos e técnicos, como, por exemplo, o do Prof. Doutor Óscar Lopes, e avancem atabalhoadamente sem consultar escritores, cientistas, historiadores e organizações de criação cultural e investigação científica. Não há uma instituição única que possa substituir-se a toda esta comunidade, e só ampla discussão pública poderia justificar a aprovação de orientações a sugerir aos povos de língua portuguesa.

3 – O Ministério da Educação, porque organiza os diferentes graus de ensino, adopta programas das matérias, forma os professores, não pode limitar-se a aceitar injunções sem legitimidade, baseadas em "acordos" mais do que contestáveis. Tem de assumir uma posição clara de respeito pelas correntes de pensamento que representam a continuidade de um património de tanto valor e para ele contribuam com o progresso da língua dentro dos padrões da lógica, da instrumentalidade e do bom gosto. Sem delongas deve repor o estudo da literatura portuguesa na sua dignidade formativa.

O Ministério da Cultura pode facilitar os encontros de escritores, linguistas, historiadores e outros criadores de cultura, e o trabalho de reflexão crítica e construtiva no sentido da maior eficácia instrumental e do aperfeiçoamento formal.

4 – O texto do chamado Acordo sofre de inúmeras imprecisões, erros e ambiguidades – não tem condições para servir de base a qualquer proposta normativa.

É inaceitável a supressão da acentuação, bem como das impropriamente chamadas consoantes "mudas" – muitas das quais se lêem ou têm valor etimológico indispensável à boa compreensão das palavras.

Não faz sentido o carácter facultativo que no texto do Acordo se prevê em numerosos casos, gerando-se a confusão.
Convém que se estudem regras claras para a integração das palavras de outras línguas dos PALOP, de Timor e de outras zonas do mundo onde se fala o Português, na grafia da língua portuguesa.

A transcrição de palavras de outras línguas e a sua eventual adaptação ao português devem fazer-se segundo as normas científicas internacionais (caso do árabe, por exemplo).

Recusamos deixar-nos enredar em jogos de interesses, que nada leva a crer de proveito para a língua portuguesa. Para o desenvolvimento civilizacional por que os nossos povos anseiam é imperativa a formação de ampla base cultural (e não apenas a erradicação do analfabetismo), solidamente assente na herança que nos coube e construída segundo as linhas mestras do pensamento científico e dos valores da cidadania.

Os signatários,


Ana Isabel Buescu
António Emiliano
António Lobo Xavier
Eduardo Lourenço
Helena Buescu
Jorge Morais Barbosa
José Pacheco Pereira
José da Silva Peneda
Laura Bulger
Luís Fagundes Duarte
Maria Alzira Seixo
Mário Cláudio
Miguel Veiga
Paulo Teixeira Pinto
Raul Miguel Rosado Fernandes
Vasco Graça Moura
Vítor Manuel Aguiar e Silva
Vitorino Barbosa de Magalhães Godinho
Zita Seabra
...

Nota: Para assinar é aqui.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Diário de viagem


Dias de sol. Acordar pela manhã, com os raios a rasgar as riscas verticais do cortinado e a fazer despertar as almas mais quietas. Apenas acordar. Esperar pelo pão quente e o jornal, ainda o sol se começa a levantar. Desfazer as malas e encontrar a roupa de praia. Sair para passear como se navegássemos pela madrugada dentro, no caminho para a manhã de luz. Procurar o lugar ao sol numa esplanada virada para a marina. Voar com as ondas do vento até ao abrigo da piscina, sempre tão azul, tão fria, mas quase só nossa. Entre braçadas, mergulhos orgulhosos e fotografias de sorrisos, vamos deixando que o dia passe, que a tarde chegue enfim, para cairmos em quase sestas de fim de tarde em frente ao mar de que temos saudades infinitas. Ouvimo-lo murmurar, chamando por nós, mas a areia quente canta mais alto e ficamo-nos por ela. Jantar fora, tarde, sem horas, e deixarmo-nos cair na cama, como crianças que todo o dia correram na praia, atrás da bola, a fazer castelos de areia, a saltar as ondas e dar mergulhos, como golfinhos em alto-mar.

Acordar de novo e despertar para um novo dia, com o mesmo entusiasmo dos dias repletos de surpresas. Os presentes, as alegrias e novos sorrisos infantis que vêm ao nosso encontro. Como são puros os sorrisos das crianças. E que saudades desses dias em que a água nunca estava fria, em que o vento nunca despenteava, em que corríamos ao lado do mundo, ao mesmo ritmo, às vezes mais velozes.

Passear ao fim do dia, vendo o recolher das andorinhas em voos rasantes, um último mergulho, seguido de uma corrida para o banho de água quente numa banheira à nossa espera. E o mundo quase parado, apenas a navegar, numas horas que quase não passam.

Olhar o corpo bronzeado e ganhar coragem para o vestido e para os saltos altos. Sair para jantar e a acabar a noite, quando já vai grande a madrugada, a dançar na pista. A noite pára, chega a hora e amanhã já é dia de voltar.

Um presente



Porque amanhã é o meu dia número um nas aulas de ginástica e porque estou solidária com o Tio Jacinto, que já deve ir no seu dia 15, no mínimo... um vídeo para nos dar coragem!

Dia da espiga


Este ano deixei passar a data! Calhou no feriado e nem dei por ela. Costumo sair de casa pela manhã, numa quinta-feira de Maio, e encontrar as vendedoras dos raminhos da espiga nas saídas do metro. Nesse dia, compro um sem-número de ramos para distribuir pela família e pelos amigos. Não para festejar o dia religioso, a quinta-feira da Ascenção, mas para seguir a tradição pagã.

Manda a tradição que, de manhã, se vá para o campo apanhar as flores do ramo - a espiga, a folha de oliveira, o malmequer branco, o amarelo e uma papoila. Hoje, porém, já muitos compram o ramo completo, pela falta de tempo para os passeios matinais pelo campo!

Cada elemento simboliza um desejo:
- A espiga é para que haja pão, ou seja, que nunca falte comida em cada casa;
- O ramo de oliveira para que haja paz (a pomba trazia no bico o ramo de oliveira) e para que nunca falte luz (antigamente as lamparinas eram alimentadas com azeite);
- As flores, para que haja alegria, simbolizada pela cor. O malmequer acredita-se que traz o ouro e a prata, a papoila o amor.

Depois, é só atar o ramo e guardá-lo em casa até ao próximo Dia da Espiga.

Eu ainda tenho o do ano passado, guardado na cozinha, bem à vista de todos. Este ano, deixei passar o dia. Mas ontem, alguém de olhar mais atento reparou que à porta de minha casa, no 'meu campo', havia todas as flores do ramo, menos a da oliveira. Alguém tem para a troca?

terça-feira, 29 de abril de 2008

Contagem decrescente... 2, 1, 0!

Desejos

É já hoje a partida para terras do sul, mas parece que as horas não passam, que os ponteiros não avançam. É sempre assim. Quando queremos que o tempo passe, ele não passa, quando o queremos eternizar, ele acelera e corre veloz contra os nossos ventos e marés. Temos de o saber contornar, ou enfrentar de espada em punho.

Vou para a praia e para um sol que espero que não fique entre as nuvens, ou escondido em manhãs de nevoeiro. Quero a sombra da espreguiçadeira para pôr as leituras em dia, uma mesa de esplanada virada ao mar, num fim de tarde, para ressuscitar a correspondência. Os jantares no pátio num quase verão quente, ou uns jantares até quase a madrugada. E acabar a dançar numa qualquer pista até ser dia.


Bom fim-de-semana a todos e até Domingo!


(O Extremo Sul - José Miguel Wisnik, roubado à Porta do Vento, sem autorização, para comemorar um ano de ventos e brisas!)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Contagem decrescente... 3

Matisse, Janela aberta

Contagem decrescente para mais quatro dias de férias!

Mal posso esperar pela hora de saída, pelo fechar da porta da Biblioteca, na quarta-feira. De rodar a chave e de a guardar, de dizer adeus aos livros que ficarão, por certo, a conversar! Hoje, que ando em desarrumações de umas prateleiras, quero deixá-los no sítio, na minha hora de partir, para que não possam fugir. Para estes dias pouco mais me apetece do que poesias, músicas e um sol que quase parece de Junho, só faltam os jacarandás!

De janela aberta aos murmúrios da cidade e à leve brisa que ainda corre, deixo-me levar pelas palavras que guardo, esperando o depois de amanhã! Hoje, uma poesia que anda aqui a navegar na minha cabeça, de um lado para o outro, passeando entre o ser alegre e o ser triste!

EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!


Mario Quintana - A Cor do Invisível

quinta-feira, 24 de abril de 2008

The day after

Gilbert Becaúd- L'important c'est la rose

Segundo a tradição catalã, no dia 23 de Abril, os cavaleiros oferecem às suas damas uma rosa encarnada de São Jorge (Saint Jordi) e recebem em troca um livro. Eu e a minha costela espanhola seguimos a tradição. Recebemos uma flor e oferecemos um livro. A propósito, lembrei-me ainda de um poema de García Lorca que tenho num quadro em casa, por baixo de uma rosa seca que guardo há quase dez anos:

¡Ave rosas, estrellas solemnes!
Rosas, rosas, joyas vivas de infinito;
bocas, senos y almas vagas perfumadas;
llantos, ¡besos!, granos, polen de la luna;
dulces lotos de las almas estancadas;
¡ave rosas, estrellas solemnes!

(...)
Flor eterna. Conjuro al suspiro.
Flor grandiosa, divina, enervante,
flor de fauno y de virgen cristiana,
flor de Venus furiosa y tonante,
flor mariana celeste y sedante,
flor que es vida y azul fontana
del amor juvenil y arrogante
que en su cáliz sus ansias aclara.

¡Qué sería la vida sin rosas!
Una senda sin ritmo ni sangre,
un abismo sin noche ni día.
Ellas prestan al alma sus alas,
que sin ellas el alma moría,
sin estrellas, sin fe, sin las claras
ilusiones que el alma quería.

(...)

Nota: Ler todo
aqui.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Matar saudades


Cecília Meireles, em desenho de Apard Szenes

"(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano."
Cecília Meireles (1901-1964)


Voltei a estudar literatura. Andava com tantas saudades de pegar num livro, de fio a pavio, e de destrinçar as entrelinhas, as reticências e o que se esconde por trás de um poema, de um texto. Há dias, lá andava às voltas com Cecília Meireles, quando me perdi em interpretações, em leituras minhas, e senti a tal saudade. Peguei num lápis e comecei a rabiscar os versos, a escrever em letra miudinha ao lado deles e a construir uma nova realidade do poema aos meus olhos de agora. Perdi-me de encantamento.

Gosto de Cecília. Conheço os seus poemas de uma Antologia à qual tenho um carinho especial e de versos soltos que às vezes encontro. Pesquisei um pouco mais sobre a biografia, a sua vida de menina órfã desde cedo, de pai e de mãe. Por isso, desde logo criou uma certa 'intimidade com a Morte', como disse. Ganha com ela a plena consciência, própria dos poetas - o confronto do éfemero com o eterno, porque na vida tudo é transitório, tudo passa. Essa temática tão cara aos poetas de todos os tempos. Gosto da sua poesia transparente, da simplicidade do seu lirismo, que é, ao mesmo tempo, concretizado com enorme preciosismo. Ao lê-la, aproximamo-nos da poesia primitiva, pela sua pureza e espontaneidade.

E foi assim que peguei em livros e me pus a ler e me pus a estudar uma poeta que é autora dos mais claros poemas brasileiros.

Acho que a seguir vou voltar-me para a Sophia ou para Mário Quintana. Ainda não me decidi, mas sei que não vou deixar voltar a saudade!