terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Um livro para nos lermos...

Ontem comprei um livro. Como gosto de comprar livros! De os percorrer a todos com os dedos, nas estantes das livrarias, nas mesas de destaque, e de os escolher com cuidado, de os pegar devagarinho, como se fossem quebráveis, como se fossem um tesouro, que o são. Os meus livros são o meu maior tesouro, muito mais do que as jóias que já vou tendo, muito mais do que outras coisas. Gosto de passar horas a ler sozinha ou de ler num colo, de ler a ouvir música clássica, porque era assim que passava os fins-de-semana ao lado do meu pai. Gosto de ler e de rir a ler, de sorrir, de chorar, de fazer ‘ah, nem acredito!’, de me rever ali, de me outrar nas leituras e de me perder, de voar com a leitura e de me prender a um livro.


Gosto que me contem histórias ao deitar, tanto quanto gosto que me embalem a tocar caixinhas de música que vou juntando na mesa-de.cabeceira, ao lado dos livros, porque são dois tesouros. Gosto que me contem histórias e de as contar. Ontem comprei um livro para me ser contado e para contar, à vez, cada um o seu capítulo, e está a ser tão bom...

Estava escondido na estante e eu gosto de livros escondidos... é um tesouro, mais um - nosso!

Chama-se A chuva pasmada e é de Mia Couto, de quem tanto gosto, porque brinca com as palavras e com as formas delas, constrói-as e desconstrói-as de um lado para o outro, para cá e para lá. Apaixonei-me pela capa dura, pelas ilustrações de Danuta Wojciechowska e pelo recorte da contracapa...

Como ele sempre dissera:
o rio e o coração, o que os une?
O rio nunca está feito, como não
está o coração. Ambos são sempre
nascentes, sempre nascendo.
Ou como eu hoje escrevo:
milagre é o rio não findar mais.
Milagre é o coração começar sempre
no peito de outra vida.

Hoje podemos ler-nos até ao fim?

6 comentários:

JG disse...

Mia Couto é um constante pasmo. A reinvenção das palavras é apaixonante. Sempre que o leio é com uma espécie de gula: saboreando lentamente as palavras, as frases, a história. Lê-se e relê-se e sempre se encontra motivo para aguçar o apetite de o ler.
Boa escolha.
E é um belo exemplar esse, o que compraste. Guarda-o bem.

rv disse...

Como vês, ainda cá vim. Também eu gosto imenso do Mia Couto. Acho a sua escrita muito doce e sumarenta. Faz-me lembrar as mangas pequeninas que só comi em África. Tão doces que o doce nos fica muito tempo na boca.
Doce é também este teu texto, Sofia.

Huckleberry Friend disse...

Só quem visse o brilho dos teus olhos, ao fim de meia hora de desconsolo devido a preços altos, livros banais, edições píficas e uma empregada campeã da má-criação...
Nisto, de repente: "Pedro, olha este!". Aprovação sumaríssima e, desde então, chuva pendurada sobre uma família com muitas histórias, homens que morrem em danças de amor, um viúvo mentiroso, dois miúdos pequenos deitados numa cama a declamarem capítulos em jogral. Podemos lê-los todos, Sofia, mas não ontem, não hoje. Um cada um dá dois por dia. Assim o prazer prolonga-se, como o rio, como o coração. Um beijo.

Sofia disse...

Tens razão JG e usas as palavras certas: - 'saboreando lentamente'. Porque é assim que Mia Couto deve ser lido, atentamente, para que a magia não se perca.
beijinhos

Sofia disse...

Olha quem é ela? A mais recente blogueira, aqui no meu humilde Cais. E encontras logo uma coisa de que gostas, eu não disse que isto era bom? Mangas, como eu adoro! Nunca comi as de África, mas hei-de provar, para perceber o que dizes realmente!

beijinhos e volta sempre que eu já comentei os teus posts todos ;)

Sofia disse...

Huck, tens razão. O livro estava escondido, perdido quase atrás de um outro livro qualquer. Mas a minha atenta visão encontrou-o, ou terá sido ele que me encontrou a mim? Estamos a gostar tanto da história, não estamos? Não sei se passa de hoje o fim da leitura, sabes que a minha curiosidade me leva sempre a ler a última página antes da primeira!

beijinhos