segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Sé que volveremos...


Madrid parece já estar tão longe e ainda ontem chegámos. Foram quatro dias memoráveis. Embora o Outono lá arrefeça os corpos, coisa que já vi que por cá continua sem o fazer, consolou-me aquele sol brilhante do Jardim del Buen Retiro e da Plaza Mayor, que aquece qualquer coração.

Mas Madrid tem sempre aquele encanto, aquela alegria de chegar mais uma vez… acho que pela oitava! E desfrutar, sem pressas, sem horários, sem compromissos… quase como pairar sobre a cidade, vendo tudo e todos, fazer parte, entrelaçar entre as ruas do Lavapiés, calquinhar o barrio de Salamanca cheio de niños pijos, acabados de sair da missa dominical, entrar e sair das tiendas em que nos dê ganas , procurar meticulosamente os sítios de almoço e de jantar, e de tapeo… Encontrar a a minha tia e ter o prazer de almoçarmos juntos… comer pulpo, calamares, tortilla e pimientos padrón – unos picán otros no! Jantar com os amigos, em casa, com a lareira, bom vino e muitas anchoas… uns amigos que nos recebem sempre bem!

Querer ver tudo e estar em tudo… viver como madrileños até tarde, mas acordar cedo, seguindo a velha máxima de que deitar tarde e cedo erguer dá para ver tudo! Andar a desoras da maioria dos transeuntes - ir ao Prado de madrugada e levar o pequeno-almoço para a cola, levar sempre o El País para poder ter algo que leer, beber muito vermouth de grifo em qualquer sítio, mas melhor que seja no Anciano Rey de los Vinos, onde põem umas tapas óptimas, mas onde não resisto às bravas. Nos entretantos, ir fazendo uma lista mental de tudo aquilo que temos de comer e onde, para não deixar passar nada! Beber muitas copas e comer muitas tapas, passear muito até não poder mais e descansar nuns braços abertos ao som de música cubana. Tentar acabar a noite com um chocolate quente e churros, mas não resistir a mais um mojito, para dar forças para o caminho de casa. Mas ainda dá tempo de dançar no meio da Plaza Mayor a Balade pour Adeline, que alguém toca numa espécie de xilofone, passar os dias a ser perseguido pelas Feuilles mortes e achar que isso é uma coincidência feliz. Subir à cúpula da catedral e ver Madrid de cima, como um voo da codorniz, sobrevoando a Plaza de Oriente, mesmo em frente Palácio Real, e pousar sobre um banco do jardim entre duas estátuas de anteriores reis, não conseguindo imaginar que estas tenham podido estar, originalmente, no telhado do palácio. Mas saber que o melhor de tudo é dançar La vie en Rose e fazer poesias ao vento...

Arranjar os dois últimos bilhetes para o musical dos Mecano e cantar as músicas todas, ou pelo menos as que sabemos! Perceber que a loucura da movida madrileña é contagiante e que se pode aguentar se forem quatro noites e mesmo assim acordo a cantar 'Hoy no me puedo levantar, el fin de semana me dejo fatal; toda la noche sin dormir, bebiendo, fumando y sin parar de reir…' O que nos leva a beber Campari con Naranja no intervalo enquanto Nacho Cano (él mismo!) nos dá um autógrafo! Mas ter a certeza que é possível seguir outros motes e 'hacer lo que podamos por cenar perdiz', no Botín. Não deixando por isso de resistir às croquetas e às almejas… quase à meia-noite, com o restaurante quase privado, sem ter reserva mas ter um sorriso que conquista qualquer camarero e que não fez a desfeita a esta niña!
Antes disso ainda aproveitar um chiringuito aberto e tapear um pouco mais, uma cecina de León (ai que saudades das Castilla e León!) e una tapa de bacalao con aceite de oliva, se bem que ainda haja uns sortudos a quem regalan una tapa de cabrales!

Passar horas na exposição da Paula Rego a ver cada pormenor em cada quadro que nos arrepia, porque há sempre um pormenor que confrange e que destrói a candura de alguns contornos e gestos. A presença do elemento animal, metáfora de uma animalidade maior do ser humano, mas também máscara para uma realidade demasiado dura. A pintora diz que resulta mais com rostos animais. Adorar os estudos dos quadros, por ser tudo mais pequenino, até aquilo que nos perturba. Gostar do quadro do Baile, mas gostar mais ainda dos estudos para esse quadro e de saber como Paula Rego o foi criando, e de o saber pela voz dela. Saber que a seguir ainda podemos subir e ver Dalí e Miró, passar só para ver aqueles de que gostamos mais! Comprar todos os postais de todos os quadros que me encantan e oferecê-los a quem me encanta também! São pinturas com poesias dentro…

Subir a Castellana até à Fundaccion Canal, mesmo ao lado das torres inclinadas só para ver a exposição – Ocultos - una exposiccion preciosa cujo mote é: 'Si la cara es el espejo del alma, no existe nada tan corporal, tan carnal como el culo'. Vale pelas imagens e por toda a disposição das fotografias, com uma decoração particular, merecedora de elogios e de visita!
Saber que antes de voltar para casa, ainda há tempo para ir ao Círculo e ver os Momentos Estelares - la fotografia do século XX, uma parte de uma grande exposição de fotografia, muito bem organizada e bem explicada, para os menos entendidos na história da fotografia!

E no fim, a melancolia do regresso, sem deixar de passar pelos sítios onde fomos felizes… em quase todos… em Madrid...

4 comentários:

Huckleberry Friend disse...

Já era hoje quando chegámos. Mas continua a ser ontem, anteontem e transantontem. É só querermos. Madrid pode sempre ser tua. E o amanhã está à distância de um passo. Ou melhor, um pulo de alegria sob o sol enganador, sem vergonha, para a multidão ver. Te quiero!

ana vidal disse...

Ah, eu sabia que não tinha escapado nada aos niños! Que saudades desses tempos, em que eu também mal parava para respirar... Boa reportagem, Sofia. Já vejo que além do Prado e do Thyssen, me faltou a exposição dos "culos"... interessante.

beijos
ana

Mário disse...

Não é por acaso que esta entrada está classificada na etiqueta "romantismo".
Isso diz tudo!
Bjs

Sofia disse...

Pedro tenho saudades de Madrid é só que te posso dizer...

Ana perdeste uma grande exposição... fantástica mesmo... e sim andámos por todo o lado, passeámos muito... deu para ver quase tudo... o resto fica para Fevereiro quando lá voltarmos!

Mário... sim diz tudo...

beijinhos aos três