A música tem o poder de saber dizer aquilo que às vezes nos custa, ou aquilo que não somos capazes de dizer. Gosto de roubar pequenos versos, pequenos pedaços de muitas delas e cantá-las em momentos oportunos! Assim, algumas músicas vão aos poucos sendo 'nossas'... e minhas, já tenho tantas... Hoje, em duas delas, descobri esta cumplicidade:
Mi escondite, mi clave de sol, mi reloj de pulsera, una lámpara de Alí Babá dentro de una chistera, no sabía que la primavera duraba un segundo, yo quería escribir la canción más hermosa del mundo. (...) Nunca pude cantar de un tirón la canción de las babas del mar, del relámpago en vena, de las lágrimas para llorar cuando valga la pena, de la página encinta en el vientre de un bloc trotamundos, de la gota de tinta en el himno de los iracundos. Yo quería escribir la canción más hermosa del mundo. (Joaquín Sabina)
Te voy a escribir la canción más bonita del mundo, voy a capturar nuestra historia en tan solo un segundo. Y un día verás que este loco de poco se olvida, por mucho que pasen los años de largo en su vida. (Oreja de Van Gogh)
Que venha o cheiro ao pó das amêndoas acabadas de partir e o das nozes ainda por secar; que venha o das vinhas que é doce e o da erva fresca dos prados. Que venha o fumo dos fumeiros e o sabor acre dos queijos. Que venha o zimbro, o sal, o mel e o azeite. Que venham figos, pães, chás, biscoitos de todo o jeito. Que venham e que matem a saudade e saciem a vontade desses sabores e ofícios de outrora...
O dizer num embrulho de um presente de que muito gostei. Obrigada, Paula e Miguel, não podiam ter escolhido melhor! Já provei a marmelada e os biscoitos, hoje talvez adormeça com um chá de lúcia lima com perpétua roxa. Como agradecimento, aqui vai uma das pirosas para o Miguel cantar à sua niña...
Para me consolar quando não consegui fazer as azevias, apesar de ter dado uma bela compota de batata-doce... e porque a voz é da minha irmã Ana e adoro ouvi-la cantar... Qual é que é a tua mensagem para mim?
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Porque era o que estava a dar no Claras em Castelo e era mesmo o que me apetecia ouvir... A voz de Katie Melua é encantadora e este vídeo é maravilhoso.
If you're a cowboy I would trail you, If you're a piece of wood I'd nail you to the floor. If you're a sailboat I would sail you to the shore. If you're a river I would swim you,If you're a house I would live in you all my days. If you're a preacher I'd begin to change my ways.
É o braço do abeto a bater na vidraça? E o ponteiro pequeno a caminho da meta! Cala-te, vento velho! É o Natal que passa, A trazer-me da água a infância ressurrecta. Da casa onde nasci via-se perto o rio. Tão novos os meus Pais, tão novos no passado! E o Menino nascia a bordo de um navio Que ficava, no cais, à noite iluminado... Ó noite de Natal, que travo a maresia! Depois fui não sei quem que se perdeu na terra. E quanto mais na terra a terra me envolvia E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra. Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me À beira desse cais onde Jesus nascia... Serei dos que afinal, errando em terra firme, Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?
'Pela tela, pela janela' e pelo mundo que vejo no teu olhar, espelho do longínquo horizonte, enquanto adormeço abraçada ao teu canto de cisne. Desejos de me outrar em ti, para que me ames só a mim, sempre diferente, sempre outra, mas só a mim.
Durante esta quadra natalícia, o Cais das Codornizes só vai passar música de Natal. Às vezes é difícil escolher apenas duas versões, mas vai ser bom partilhar este gosto musical. Estas músicas que só ouvimos em Dezembro têm o condão de criar um cenário maravilhoso, por vezes até parece que neva... vamos lá à primeira, muito especial, habitualmente cantada a duas vozes, as nossas, em viagens de carro, estrada fora. Winter Wonderland cantada pela Macy Gray no Cais e pelos Eurythmics no codornizes.
Para mim já é Natal. Finalmente chegou, apesar de nas ruas se andar a dizer que já é Natal há mais ou menos dois meses. Para mim começou no Sábado, dia 1. Gosto do Natal, sou daqueles espíritos que se deixa contagiar por tudo aquilo que o Natal tem de bom: os doces, bolos, salgados e fritos, o peru e o bacalhau, a árvore recheada de enfeites e luzes coloridas, um banco em frente à lareira a escrever postais, calendários de chocolate, presépios vários que se vão coleccionando, na esperança de ter um dia daqueles meticulosamente encenados... com lagos e muitos pastores, músicas de natal nas vozes de coros de anjos, concertos nas igrejas aquecidas por essas vozes, um coração aberto a todos, um espírito natalício impossível de não me fazer feliz e uma vontade de o espalhar por todo o mundo.
Acabei de receber um presente que andava há uns meses a namorar... e quando se namora muito, quando se quer muito, as coisas acontecem. Apareceu bem embrulhadinho e os livros, quando vêm embrulhados, são uma preciosidade. Mas que se rasgue o papel depressa e que se puxe de lá de dentro essa surpresa... e eis que era ela, a Antologia Poética de Cecília Meireles.
A proposta de hoje é Sisters of mercy, de Leonard Cohen. No codornizes, a versão original, n'o meu cais, uma interpretação céltica de Sting com os Chieftains.
Mais de um ano depois, voltei a entrar no Galeto, voltei a sentar-me no mesmo lugar e a comer a mesma coisa: sopa de tomate gratinada e uma dose de batatas fritas. Pela minha cabeça passearam-se as memórias dos Domingos ali passados a jantar com o Avô. Quase que revi inteiramente cada um de nós, ali sentado. As omoletes com batatas fritas e o melhor esparregado do mundo. O pão em tostas pequenas e cheio de patê de sardinha e de atum. O gelado de pistachio e um número infinito de Coca-Colas. O jantarmos todos juntos, memórias de uma infância feliz. Seguiam-se os passeios pelos túneis da Avenida: do Campo Pequeno ao Grande, sempre em alta velocidade, para fazer borboletas na barriga, fazendo-nos rir sem parar... para um lado e para o outro, uma e outra vez e mais outra!
Mais tarde, já era depois das noitadas que nos encontrávamos ali, com o Avô, que nunca deixou de ter idade para lá estar até fechar. Lembro-me do sorriso com que nos recebia, mesmo sabendo que, naquele dia, a conta iria quadriplicar, mas tínhamos direito a pedir tudo... e lá vinham o bitoque, a sopa, as batatas fritas, as imperiais...
Hoje voltei lá, depois de uma noitada, depois de um concerto da Teresa Salgueiro. No caminho de casa, fiz marcha atrás e soube, imediatamente, que tinha de voltar ali, porque é um sítio tão especial, tão meu. Estava cheio, mas os nossos lugares ainda estavam vazios, como que à nossa espera... sentámos e recordámos... o Avô, os serões ali passados, as conversas que tivemos, mas houve uma coisa que me fez sorrir muito: a imagem daquele sorriso com que nos recebia! Muitos dizem que tenho um igual ao dele... nunca acreditei muito nisso, mas hoje, acho que estava igualzinho!
Estou com os azuis! e é esta a música que me vem à cabeça... ando assim entre a tristeza e a melancolia, a saudade e a realidade... Dizem que isso passa com abraços! Estou, como se diz, com a neura - tenho saudades do fim-de-semana, quero outro e quero mais; tenho saudades de almoçar fora a ver o mar e nunca mais chega amanhã; tenho saudades de ter saudades... Ai rotininha maldita...
O País do Carnaval, o primeiro romance de Jorge Amado. Um daqueles livros que começam com aquelas frases que nunca esqueceremos, mas foi poucos parágrafos mais à frente que descobri um excerto que me apaixonou e que até agora não me deixou largar o livro...
Já descrera da felicidade. No fundo, entretanto, Paulo Rigger sentia que era um insatisfeito. Compreendia que faltava qualquer coisa na sua vida. O quê? Não o sabia. Isso torturava-o. E dedicava toda a sua vida à procura do Fim.
“Sim, murmurava no tombadilho, olhando as ondas, porque toda vida deve ter, necessariamente, um Fim... Qual?”
Mas o mar, indiferente, não lhe respondia. O sol que morria desenhava no horizonte paisagens berrantes. O sol foi o primeiro cubista do mundo...
Um Domingo Passar um fim de semana em Lisboa é um acontecimento! Como tal, começa desde sexta-feira o frenesim para disfrutar de tudo. Palmilhar as ruas sem a pressa semanal, sem a agitação e sem movimentos alucinantes de carros e pessoas que não passeiam, mas correm sem parar, de um lado para o outro, e de novo para um lado.
Sábado: acordar tarde, saber que se pode dormir sempre mais e que lá fora nada nem ninguém nos espera. Não há pressa, apenas a alegria de ficar a ler, a preguiçar... ou a adormecer entre duas torradas.
Ontem foi Domingo e acordei desejosa de tomar o pequeno-almoço em Sintra! Foi mesmo a primeira coisa que me passou pela cabeça. Desejo de sentir aquele frio da serra, aquele nevoeiro matinal, aquele cheirinho e o sabor dos travesseiros. Passear pelas ruas, por entre as árvores, por baixo delas e ter a certeza de que é Outono. Amareladas, encarnadas, acorderosadas... Passear por entre as ruas e subir até Seteais, só para ver a paisagem enquadrada naquela moldura que nos parece sempre nova, sempre diferente!
Ontem foi Domingo e as ruas de Sintra estavam enevoadas pelos assadores de castanhas, as pessoas riam e conversavam, andavam em passo de passeio e deambulavam por ali, como se nas suas cabeças também os pensamentos deambulassem, sem norte, sem ritmo, apenas ao ritmo de um Domingo que ainda tardava em acabar. Passear pela serra até Cascais, ir vendo o mar em cada curva, passar no Guincho, onde a areia sempre varrida estava pontilhada de surfistas e banhistas corajosos, junto de um mar que de tão verde me fazia lembrar uns olhos, com uma espuma branca, branca de pureza inicial, coberto por um céu, abóbada azul onde se faziam erguer papagaios de papel. Nele ainda havia um sol de fazer cerrar os olhos e de deitar lágrimas ao canto.
Um dia perfeito de Outono, em que o sol veio visitar o vento e o frio, a neblina e o nevoeiro e que, ao fim da tarde, se despediu de nós numa janela do Restelo, onde lá ao fundo se pôs no rio. Há dias em que sabemos que vamos ser felizes... fomos!
Por favor, não me analise Não fique procurando cada ponto fraco meu. Se ninguém resiste a uma análise profunda, Quanto mais eu... Ciumento, exigente, inseguro, carente Todo cheio de marcas que a vida deixou Vejo em cada grito de exigência Um pedido de carência, um pedido de amor.
Amor é síntese É uma integração de dados Não há que tirar nem pôr Não me corte em fatias Ninguém consegue abraçar um pedaço Me envolva todo em seus braços E eu serei o perfeito amor. (Mário Quintana)
Ontem fui ao Musicais, no Jardim do Tabaco, para ouvir cantar o Tomás, o Miguel e o Filipe. Foi lindo. Não via o Tomás há mais de quatro anos e confesso que adorei reencontrar aquela voz, cada vez mais madura, mais maleável e encantadora, e aquele amigo divertido, simpático, com um sorriso encantador! O reportório foi fenomenal, as vozes e os acompanhamentos muito bons e, sobretudo, divertidos - como é possível estar com aquela descontração em palco? A diversão de cantar Surfin' USA (Beach Boys) e a beleza da voz do Tomás a cantar o Eu sei de Sara Tavares... Aquelas músicas fizeram-me lembrar tempos antigos de guitarradas e cantorias, num terraço virado ao mar na mais linda praia da terra portuguesa, momentos esses muito especiais e que recordo com imensa saudade e desejos de bis!
As minhas preferidas? Dois clássicos especiais: I just called to say I love you, do Stevie Wonder, porque a cantava muitas vezes ao telefone, e You've got a friend, de Carole King, porque me lembrou o Vasco, que me cantava sempre esta música.
Muere el coreógrafo francés Maurice Béjart, gran divulgador de la danza contemporánea. Su compañía, Ballet del siglo XX, llevó esta arte al gran público.- Ha fallecido a los 80 años en Lausana, Suiza(in EL País)
E porque esta era a música que queria pôr hoje, porque de manhã me chegou este poema de Miguel Torga ao e-mail e lembrei-me logo do Moustaki. Obrigada, J.
Como nunca vieste, já não venhas. O mais rico tesouro é o que se nega. Ágil veleiro doutros mares, navega Com as asas que tenhas! Foge de ti, porque de mim fugiste. Alarga a solidão que me consome. E apaga na memória a praia triste Onde eu pergunto às ondas o teu nome. (Coimbra, 6 de Março de 1952)
Huckleberry Friend deixou um novo comentário na sua mensagem "Saudade de uma carta com caligrafia":
Reina, reina, quantas cartas, quantos postais, por vezes perdidos ou nunca enviados, vão aparecendo nas gavetas e nos caixotes por arrumar (ainda que a maioria esteja impecavelmente catalogada)? Não me canso de relê-las, de escrevê-las, umas para meter no correio, outras para deixar, discretamente, onde sabemos que o destinatário não pode deixar de encontrá-las... Não tenho, ao contrário do Manel, grande razão de queixa dos correios... queixo-me, como todos, da falta de cartas bem caligrafadas, por vezes com uma mancha de café ou uma paisagem desenhada ao canto. E o tempo, Manel, em que o carteiro era o único elo de ligação entre dois amantes?
Mas deixemo-nos de lamúrias: fui, recentemente, visitado por um carteiro inesperado e de identidade misteriosa. O breve telegrama que me cantou foi um bálsamo num dia não, quase como o Moustaki (linque acima) a cantar-me ao ouvido. Beijinhos!
Le jeune facteur est mort
Il n'avait que 17 ans
L'amour ne peu plus voyager, il a perdu son messager
C'est lui qui venait chaque jour
Les bras chargé de tous mes mots d'amour
C'est lui qui portait dans ces main
la fleur d'amour cueillie dans ton jardin
Il est parti, dans le ciel bleu
Comme un oiseau enfin libre et heureux
Et quand son âme la quitté
Un rossignol quelque part à chanter
Je t'aime autant que je t'aimais
mais je ne peu le dire desormais
Il à emporter avec lui
Les derniers mots que je t'avais écrit
Il n'iras plus sur les chemin
Fleuris de rose et de jasmin
Qui mènent jusqu'à ta maison
L'amour ne peu plus voyager
Il a perdu son messager
Mais mon coeur est comme en prison
Il est parti l'adolescent
qui t'aportait mes joix et mes tourments
L'hiver a tué le printemps
Tout est fini pour nous deux maintenant
NOTA: Depois de publicada, esta entrada tornou-se parte de um "Cais das Codornizes" involuntário. Aqui, pusemos Moustaki a tocar ao vivo. Já o codornizes preferiu a versão de estúdio.
Ainda há pouco tempo, passei horas a reler as cartas antigas que recebi! Foi como regressar ao passado em pedaços de papel. Relembrar histórias, amigos, amores antigos. Hoje, já quase não recebo cartas, apesar de ainda enviar algumas. Recebo alguns postais de tempos a tempos, de quem está longe ou vai passar uns dias longe. Eu gosto de escrever cartas e de mandar postais, de desenhar a caligrafia muito perfeitinha para se poder ler. De dizer onde estou, como está o tempo e contar as novidades o que vi, o que fiz, o que quero fazer! Tenho saudades dos tempos em que os postais de Natal eram imensos e se impunham em fila, em cima da cómoda, até ao dia de Reis. Gosto de escrever cartas a quem vive comigo ou mesmo a quem vive perto... Por isso gostei tanto deste excerto do livro que estou a ler (mesmo a acabar) do José Eduardo Agualusa - O Vendedor de Passados. Quem sabe não vai alguém, um dia, vender o meu passado perdido aí nessas cartas que escrevi e recebi? Espero que não...
«Meu bom amigo,espero que esta carta o encontre de excelente saúde. Bem sei que não é exactamente uma carta isto que lhe escrevo agora, mas uma mensagem electrónica. Já ninguém escreve cartas. Eu, sou-lhe sincero, sinto saudades dos tempo em que as pessoas correspondiam, trocando cartas, cartas autênticas, em bom papel, ao qual era possível acrescentar uma gota de perfume, ou juntar flores secas, penas coloridas, uma madeixa de cabelo. Sofro uma nostalgia miúda desse tempo em que o carteiro nos trazia as cartas a casa, e da alegria, do susto também, com que as recebíamos, com que as líamos, e do cuidado com que, ao responder, escolhíamos as palavras, medindo-lhes o peso, avaliando a luz e o lume que ia nelas, sentindo-lhes a fragrância, porque sabíamos que seriam depois sopesadas, estudadas, cheiradas, saboreadas, e que algumas conseguiriam, eventualmente, escapar à voragem do tempo, para serem relidas muitos anos depois.»