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quinta-feira, 10 de abril de 2008

Atenção pecadoras!!!

Rosário Andrade - Adão e Eva (2005), encontrado aqui.


Para as minhas amigas, para que não se deixem levar por maus caminhos:


Hoje ando em arrumações na Biblioteca, a tirar de um lado e a pôr do outro. Os livros passeiam-se de estante em estante e aproveito para limpar o pó, entre dois espirros de alergia. A música canta alto e eu com ela. Danço com a vassoura, com o pano do pó e com um ou dois livros mais pesados. Às vezes páro para descansar, quando algum livro me seduz mais.

É o meu grande problema neste emprego - o jogo de sedução. Olho para as estantes e perco-me com os títulos, levanto-me, vou ter com eles e trago-os para o pé de mim. Abro, começo a ler, continuo, mais um bocadinho, só mais uma página e já perdi imenso tempo. Ando aqui numa luta entre a emoção e a razão (um duelo clássico!). Ontem foi o Tratado de Cozinha e de Copa do Bento da Maia. Hoje ando aqui às voltas com o Pureza e Formosura do Dr. Tihamér Tóth (professor da Universidade de Budapeste), de 1953, dirigido às donzelas, apelando à sua pureza!

Diz a Introdução: 'É para conservares a tua alma sempre cristalina que escrevo este livro.' Já estou no segundo capítulo e estou a rir à gargalhada. Não aguentei não partilhar e já tirei cópias dos melhores sub-capítulos. Acabei de ler agora o Sedução pecaminosa. Diz assim: 'O desabrochar de nova vida é sempre acompanhado de profunda alegria. Contempla a natureza da Primavera: o sol brilha, canta nos salgueirais o rouxinol, a brisa corre mansamente, zumbe a abelha, o regato murmura!'


Avancemos... Pura e bela:


'Tens o dever sagrado de guardar estes desejos e tendências até ao dia em que te apresentarás diante do altar do Senhor, onde o teu futuro marido te receberá pura e branca como a neve.'


Antes do casamento, nunca, seja pelo motivo que for, hás-de dar satisfação a estas tendências e nem sequer prestar ouvidos a vozes sedutoras.


Fora do matrimónio não é lícito cnsentir, com conhecimento e plena deliberação, em pensamentos, desejos, sensações e actos que se refiram à chamada 'vida sexual'. Está vigilante e não consintas em tais pensamentos, olhares, conversas ou acções.
(...)


Cara donzela, queres conservar-te pura?


Há raparigas que, infelizmente, não vigiam, que, sem receio, caminham pela vertente que leva ao precipício. Ai dauquela que começa a descer! Ai daquela cuja alma, em plena Prmavera, apanha a geada duma noite de Maio!'


(...)


Cuidado! Cuidado com os olhos! Não permitas nunca, sob nenhum pretexto, que eles se fixem em nada que possa ofender no mínimo a pureza da tua alma. Não esqueças que no mundo actual pulula em torno de ti uma multiplicidade de inimigos.
(...)
Sabei que se uma jovem é, desde há muito tempo, escrava do pecado de impureza, a sua libertação será difícil, dificílima.
O segredo está em... conseguir passar algumas semanas, alguns meses sem pecar.'
Ainda terei salvação??????

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Amante de duas noites



Os livros de Patrick Süskind são sempre amantes fugazes, porque nem nos damos conta do tempo a passar. As folhas passam a um ritmo veloz mas, ao mesmo tempo, são como brisas que navegam no nosso pensamento. Aconteceu-me com A Pomba, com O contrabaixo e, nos últimos dois serões, com O senhor Sommer. O mesmo já não posso dizer de O perfume, que me acompanhou em vários fins-de-semana, em passeios por Lisboa, lendo ao ritmo da calçada, sentindo todos os cheiros que o livro emite e acabando a última página na Basílica da Estrela, durante um concerto de órgão.

"No tempo em que eu ainda trepava às árvores - há muitos, muitos anos, há dezenas de anos atrás, media apenas pouco mais de um metro, calçava o número vinte e oito e era tão leve que podia voar - não, não estou a mentir, naquele tempo eu podia de facto voar - ou, pelo menos, quase, ou, melhor dizendo: naquela altura teria realmente conseguido voar, se de facto o tivesse querido fazer e se verdadeiramente tivesse tentado..."

in A história do senhor Sommer, de Patrick Süskind
(com ilustrações de Sempé)

terça-feira, 1 de abril de 2008

Parabéns Kundera!

Milan Kundera nasceu a 1 de Abril de 1929 em Brnö, na antiga Checoslováquia, e vive em França desde 1975.

As perguntas verdadeiramente importantes são as que uma criança pode formular - e apenas essas. Só as perguntas mais ingénuas são realmente perguntas importantes. São as interrogações para as quais não há resposta. Uma pergunta para a qual não há resposta é um obstáculo para lá do qual não se pode passar. Ou, por outras palavras: são precisamente as perguntas para as quais não há resposta que marcam os limites das possibilidades humanas e traçam as fronteiras da nossa existência.
in A Insustentável Leveza do Ser

Quando penso em Milan Kundera, lembro-me sempre das tardes de Verão deitada numa espreguiçadeira amarela virada às Berlengas, à espera do pôr-do-sol. Acho que o li no mesmo sítio, no mesmo pátio, ao fim do dia, nas tardes de praia. O mesmo se passa com Luís Sepúlveda e Colleen McCullough, sempre os li nas férias de Verão, um após outro, muitas vezes depois de a minha Mãe os ter lido, outras vezes ao mesmo tempo.

Lembro-me do verão da Ignorância (2000) e de ter ficado a pensar, a propósito de uma história minha, no facto de a ausência e a distância poderem quebrar os sonhos e os desejos, poderem apagar as lembranças e os desejos a dois e criar dois novos seres tão distantes, apesar do passado que os une. E que as ideias que temos do passado, daquilo que fomos, podem ser tão distintas de um ser para outro. Nas memórias guardamos apenas uma parte daquilo que fomos, que vimos ser e que aconteceu. A nossa ignorância está também em não saber porque recordamos o que recordamos, porque guardamos na alma determinadas coisas e não outras. É no reencontro com o passado, com as nossas personagens do passado, que nos deparamos com essa inevitável ignorância humana.

Ainda não me aventurei em A Insustentável leveza do ser (1984), mas será um dos próximos, quem sabe este Verão, na mesma cadeira virada ao mar.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Bom fim-de-semana

"Es necesario abrir los ojos y notar que las cosas buenas están dentro de nosotros, dónde los sentimientos no necesitan de motivos ni los deseos necesitan alguna razón. El importante es aprovecharse la del momento y aprender su duración, porque la vida está en los ojos de quién sabe verlo."
Gabriel García Márquez

Sermão da sexta-feira

Questão é curiosa nesta Filosofia, qual seja mais precioso e de maiores quilates: se o primeiro amor, ou o segundo? Ao primeiro ninguém pode negar que é o primogénito do coração, o morgado dos afectos, a flor do desejo, e as primícias da vontade. Contudo, eu reconheço grandes vantagens no amor segundo. O primeiro é bisonho, o segundo é experimentado; o primeiro é aprendiz, o segundo é mestre: o primeiro pode ser ímpeto, o segundo não pode ser senão amor. Enfim, o segundo amor, porque é segundo, é confirmação e ratificação do primeiro, e por isso não simples amor, senão duplicado, e amor sobre amor. É verdade que o primeiro amor é o primogénito do coração; porém a vontade sempre livre não tem os seus bens vinculados. Seja o primeiro, mas não por isso o maior.

Padre António Vieira, in "Sermões"

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Cantinho da biblioteca (III)


"Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
-Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
-Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
-Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato."

Lewis Carroll , in Alice no País das Maravilhas
(encontrado
aqui)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Expiação

Este Sábado, estive em casa a ver o filme Expiação, em frente à lareira - um luxo. Já tinha lido o livro, uma delícia.
Ao filme faltam-lhe as entranhas das personagens que Ian McEwan tão bem sabe desvelar, num vocabulário primoroso. Há o desenhar da elegância das personagens, uma fotografia nítida que oscila entre a luz e a sombra, como as próprias personagens. O ponto alto do filme, a cena de Byron no fim da sua vida (Vanessa Redgrave), num monólogo formidável, onde se revela a verdadeira história, a maturidade de assumir um erro eterno. A sensação de que nem sempre é possível voltar atrás, nem sempre se pode emendar aquilo que se faz. A nítida consciência de um 'realismo insuportável' de que fala o autor, onde se confrontam o amor, a culpa e o perdão e a necessidade que temos de tentar reescrever a realidade para podermos estar em paz.

Recebeu um único Óscar, o merecido, pela banda sonora, a cargo do italiano Dario Marianelli.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Deixa-me ler que eu deixo-te dormir

Obrigada à mana Ana que me mandou este vídeo para alegrar a minha manhã e para me fazer deambular nas memórias felizes da nossa Rua Sésamo. Porque ela sabe que eu gosto de ler sossegada e muitas foram as vezes em que não me deu essa paz, saltitando ao meu lado. Estás perdoada sempre que fizeste de Egas e eu de Becas!



Nota: Para ti, minha querida, deixo este, de quando eu fazia de Egas e tu de Becas, não te deixando dormir.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

De fio a pavio...


Há livros que dão vontade de ler de fio a pavio, ou de os lermos devagar para nunca mais os acabarmos, antecipando a saudade daqueles que nos vão ficando queridos. Desde pequena que sou assim. Há livros que quero e não quero acabar. Muitos vão-se somando na minha mesa de cabeceira para que possa voltar a eles em dias mais cinzentos, em que bate em minha alma a melancolia. Mas a verdade é que quero saber como acabam, quem vive ou morre, mesmo quando sei que morrem todos ou não morre ninguém. Gosto de ler a última página depois da primeira, mas fica tanta saudade quando a leio depois da penúltima.

Atrás das persianas fechadas, no jardim seco, árido e tostado ardia o Verão com a sua última raiva, como um incendiário que no seu furor delirante, abrasa o campo antes de ir pelo mundo fora. O general tirou a carta, alisou a folha de papel cuidadosamente e, sob a luz forte, com os óculos no nariz, leu outra vez as linhas rectas e curtas, traçadas com letras alongadas. Cruzou as mãos atrás das costas e assim continuou a leitura.

(...)

A ama sentou-se. No último ano envelhecera. Depois dos noventa as pessoas já não envelhecem como depois dos cinquenta ou sessenta. Envelhecem sem ressentimento. O rosto de Nini estava enrugado e rosado - as matérias muito nobres envelhecem assim, como as sedas de centenas de anos em que uma família teceu toda a sua habilidade manual e os seus sonhos. No ano passado contraíra cataratas num dos olhos. Esse olho estava agora triste e cinzento. O outro ficava azul, tão azul como as lagoas eternas entre as grandes montanhas, em Agosto. Esse olho sorria.


in As velas ardem até ao fim - Sándor Márai

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ainda a tristeza...


As lágrimas são a linguagem muda da dor.

Voltaire

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O nosso tesouro...

A M. foi a minha primeira amiga em Lisboa! Tinha eu acabado de chegar da minha infância no campo, onde a liberdade quase não tinha limites, quando a conheci, no primeiro dia de aulas. Ficámos logo muito amigas, as melhores. Vivíamos perto uma da outra, voltávamos juntas da escola e foi com ela que partilhei todos os anos até ao fim do liceu. Foi uma amiga sempre, mesmo que depois nos tenhamos separado um pouco, ela sabia sempre quase tudo sobre mim e ainda hoje, quando nos vemos, ficamos horas à conversa… já é feitio, se havia repreensão a fazer-nos na escola era sempre a mesma: faladoras.

Na sala de aula, copiávamos desde sempre uma pela outra, mandávamos bilhetinhos e escrevíamos cartas de amor em conjunto aos nossos respectivos amores. O D. gostava de mim, mas era a ela que lhe tremiam as pernas quando ele aparecia na sua bicicleta verde. As nossas conversas à porta da escola eram feitas em 'estrangeiro', para nos armarmos em crescidas, mas aquilo não era língua nenhuma, nem nós nos percebíamos. Cantávamos a Laura Pausini com as letras todas trocadas. Depois das aulas, passávamos horas ao telefone e eu sentia o cheiro do arroz-doce da mãe dela através do telefone! Andávamos sempre à chuva, porque nunca gostámos de guarda-chuva, mas antes de ela ir para casa ia secar a roupa e o cabelo à minha. Crescemos sempre juntas e fomos andando de escola, sempre juntas.

Juntas vivemos a maior aventura, armadas em espiãs de alta classe – descobrir o que estava para lá de uma porta fechada a sete chaves, numa sala ao fundo da nossa escola. Como boas espiãs levámos luvas para não deixar impressões digitais e lanternas para espreitar pelo buraco da fechadura. Tentávamos arrombar a porta, mas isso fazia muito barulho e, magrinhas como éramos (ela ainda é!), não íamos ser capazes. Só havia uma maneira de lá entrar: saltar uma parede que não ia até ao tecto ou, pelo menos, espreitar por ela… foi ela que o fez, porque era mais alta! Mas foi também ela que se magoou, porque eu a deixei pendurada na parede, sem a ajudar… não tinha forças. Nunca chegámos a saber ao certo o que lá estava. Sabíamos que eram livros, outras coisas, nada de importante para nós, que julgávamos ir encontrar cadáveres e tesouros (imaginação fértil!). Mas, para nós, foi como descobrir o baú do tesouro e ele estar vazio. Uma desilusão.

Desde então que não penso nesta história, mas, na sexta-feira, falava eu da minha biblioteca, num primoroso jantar em casa da minha mãe (como são todos os que ela faz, assim se conserve!), quando me disse:

- Sabes, os livros da tua biblioteca estiveram anos fechados numa sala da escola primária! Uma sala lá ao fundo, que estava sempre fechada. Lembras-te?

E eu só tive tempo de abrir um sorriso e de dar pulos de alegria – afinal. aquilo era mesmo um tesouro e agora era meu! Nem queria acreditar! E esteve à minha espera, à espera de que eu pegasse em cada um dos livros e os ordenasse, para depois partilhar este nosso tesouro com o mundo. A vida é maravilhosa, estas coincidências são sempre deliciosas.

Por isso Mada., hoje partilho contigo este nosso tesouro e espero uma visita tua, para que possamos apreciá-lo as duas!

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Um livro para nos lermos...

Ontem comprei um livro. Como gosto de comprar livros! De os percorrer a todos com os dedos, nas estantes das livrarias, nas mesas de destaque, e de os escolher com cuidado, de os pegar devagarinho, como se fossem quebráveis, como se fossem um tesouro, que o são. Os meus livros são o meu maior tesouro, muito mais do que as jóias que já vou tendo, muito mais do que outras coisas. Gosto de passar horas a ler sozinha ou de ler num colo, de ler a ouvir música clássica, porque era assim que passava os fins-de-semana ao lado do meu pai. Gosto de ler e de rir a ler, de sorrir, de chorar, de fazer ‘ah, nem acredito!’, de me rever ali, de me outrar nas leituras e de me perder, de voar com a leitura e de me prender a um livro.


Gosto que me contem histórias ao deitar, tanto quanto gosto que me embalem a tocar caixinhas de música que vou juntando na mesa-de.cabeceira, ao lado dos livros, porque são dois tesouros. Gosto que me contem histórias e de as contar. Ontem comprei um livro para me ser contado e para contar, à vez, cada um o seu capítulo, e está a ser tão bom...

Estava escondido na estante e eu gosto de livros escondidos... é um tesouro, mais um - nosso!

Chama-se A chuva pasmada e é de Mia Couto, de quem tanto gosto, porque brinca com as palavras e com as formas delas, constrói-as e desconstrói-as de um lado para o outro, para cá e para lá. Apaixonei-me pela capa dura, pelas ilustrações de Danuta Wojciechowska e pelo recorte da contracapa...

Como ele sempre dissera:
o rio e o coração, o que os une?
O rio nunca está feito, como não
está o coração. Ambos são sempre
nascentes, sempre nascendo.
Ou como eu hoje escrevo:
milagre é o rio não findar mais.
Milagre é o coração começar sempre
no peito de outra vida.

Hoje podemos ler-nos até ao fim?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A nova geração...

Para acabar com os preconceitos e mitos do carrapito, da saia lápis, dos óculos na ponta do nariz e ausência de beleza... eis a nova geração de bibliotecárias... EU!

Sou como a lua...



Desde pequena que gosto de ver a lua e as estrelas, sentada numa rocha, num banco de jardim, num pedaço de areia no Verão. De apontar o dedo e desenhar as constelações que o meu avô me ensinou... dizia que era romântico saber as constelações, para quando se namora ao luar. Porque elas sabem muitos dos meus segredos e porque eu acho que sou mesmo como a lua... tenho fases!


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Cantinho da biblioteca (I)


A minha vida faz-se ao contá-la e a minha memória fixa-se com a escrita; o que não ponho em palavras no papel, o tempo apaga-o!

(Isabel Allende in Paula)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

De que cor são as nuvens?

Porque na vida não há só preto e branco e há coisas para as quais andamos a olhar há séculos, mas ainda não as vimos bem!




Ele abriu a janela ao meio, o que encheu a sala de ar frio.
- Anda cá Griet.
Poisei o trapo no parapeito e dirigi-me para junto dele.
- Espreita pela janela.
Espreitei. Estava um dia ventoso, com nuvens que desapareciam por trás da torre da Igreja Nova.
- De que cor são aquelas nuvens?
- São brancas, senhor.
- São? - perguntou ele, erguendo ligeiramente as sobrancelhas.
Deitei-lhes mais uma olhadela.
- E cinzentas. Talvez vá nevar.
- Vá lá Griet, consegues fazer melhor do que isso. Pensa nos teus legumes.
- Nos meus legumes, senhor?
Ele moveu a cabeça ligeiramente. Estava outra vez a irritá-lo. O meu maxilar contraiu-se.
- Pensa em como separaste os brancos. Os nabos e as cebolas. São do mesmo branco?
De súbito compreendi.
- Não. O nabo tem verde a cebola amarelo.
- Exactamente. Então que cores vês nas nuvens?
- Há azul nelas - respondi depois de as examinar durante alguns minutos. E... amarelo também. E algum verde! - Estava tão entusiasmada que até apontei. Tinha olhado para nuvens durante toda a vida mas era como se as visse pela primeira vez naquele momento.
Ele sorriu.
- Hás-de descobrir que há pouco branco puro nas nuvens, embora as pessoas digam que são brancas.


Tracy Chevalier, in Rapariga com Brinco de Pérola

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

País de cigarro livre

Ontem, enquanto pensava ir ao Procópio, só me vinha uma ideia à cabeça: será que lá se pode fumar? Confesso que não imaginava aquele lugar sem as chaminés por cima dos habitués... Na verdade, acho que até perdia um pouco o encanto e o ambiente característico dos charutos, cigarrilhas, cigarros e cachimbos! E não é que se pode mesmo! Há coisas que ainda bem que não mudam... País de cigarro livre, já dizia o Garrett.

(...) No entretanto vamos acender os nossos charutos, e deixemos os precintos aristocráticos da ré: à proa, que é país de cigarro livre.

Não me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fumar a bordo. É notável esquecimento no poeta mais embarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o enjoo, a mais prosaica e nauseante das misérias da vida! Pois num dia destes, sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água, enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro da Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo.

Fumemos!

Aqui está um campino fumando também gravemente o seu cigarro de papel, que me vai emprestar lume.
– «Dou-lho eu, senhor...» acode cortesmente outra figura mui diversa, cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam com os do moçárabe ribatejano.
Acenderam-se os charutos, e atentámos mais devagar na companhia em que estávamos.
in Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett (1799-1854)

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Sol: o primeiro cubista do mundo

O que ando a ler?
O País do Carnaval, o primeiro romance de Jorge Amado. Um daqueles livros que começam com aquelas frases que nunca esqueceremos, mas foi poucos parágrafos mais à frente que descobri um excerto que me apaixonou e que até agora não me deixou largar o livro...

Já descrera da felicidade. No fundo, entretanto, Paulo Rigger sentia que era um insatisfeito. Compreendia que faltava qualquer coisa na sua vida. O quê? Não o sabia. Isso torturava-o. E dedicava toda a sua vida à procura do Fim.

“Sim, murmurava no tombadilho, olhando as ondas, porque toda vida deve ter, necessariamente, um Fim... Qual?”

Mas o mar, indiferente, não lhe respondia. O sol que morria desenhava no horizonte paisagens berrantes. O sol foi o primeiro cubista do mundo...

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Saudade de uma carta com caligrafia

Ainda há pouco tempo, passei horas a reler as cartas antigas que recebi! Foi como regressar ao passado em pedaços de papel. Relembrar histórias, amigos, amores antigos. Hoje, já quase não recebo cartas, apesar de ainda enviar algumas. Recebo alguns postais de tempos a tempos, de quem está longe ou vai passar uns dias longe. Eu gosto de escrever cartas e de mandar postais, de desenhar a caligrafia muito perfeitinha para se poder ler. De dizer onde estou, como está o tempo e contar as novidades o que vi, o que fiz, o que quero fazer! Tenho saudades dos tempos em que os postais de Natal eram imensos e se impunham em fila, em cima da cómoda, até ao dia de Reis. Gosto de escrever cartas a quem vive comigo ou mesmo a quem vive perto... Por isso gostei tanto deste excerto do livro que estou a ler (mesmo a acabar) do José Eduardo Agualusa - O Vendedor de Passados. Quem sabe não vai alguém, um dia, vender o meu passado perdido aí nessas cartas que escrevi e recebi? Espero que não...

«Meu bom amigo,espero que esta carta o encontre de excelente saúde. Bem sei que não é exactamente uma carta isto que lhe escrevo agora, mas uma mensagem electrónica. Já ninguém escreve cartas. Eu, sou-lhe sincero, sinto saudades dos tempo em que as pessoas correspondiam, trocando cartas, cartas autênticas, em bom papel, ao qual era possível acrescentar uma gota de perfume, ou juntar flores secas, penas coloridas, uma madeixa de cabelo. Sofro uma nostalgia miúda desse tempo em que o carteiro nos trazia as cartas a casa, e da alegria, do susto também, com que as recebíamos, com que as líamos, e do cuidado com que, ao responder, escolhíamos as palavras, medindo-lhes o peso, avaliando a luz e o lume que ia nelas, sentindo-lhes a fragrância, porque sabíamos que seriam depois sopesadas, estudadas, cheiradas, saboreadas, e que algumas conseguiriam, eventualmente, escapar à voragem do tempo, para serem relidas muitos anos depois.»

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Página 161, quinta linha

Também fui apanhada na corrente da "Página 161" e, como tenho muitos e bons amigos, fui apanhada logo duas vezes no mesmo fim-de-semana. O procedimento é fácil:

1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica acaso e não escolha.
2. Abra o livro na página 161.
3. Na referida página procure a 5.ª frase completa.
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada.
5. Passe o desafio a cinco bloguistas.

Então eu passo a corrente aos meus mais recentes marinheiros, que, por causa disto, se calhar nunca mais cá aportam:
- 1 vez por semana do Myself
- Assim faliu Zarathustra do Tertuliano
- Pinguins que eles são muitos.

Aqui deixo as minhas duas partilhas, uma para cada corrente, de dois livros que estou a ler:

Para o Codornizes, porque este foi um presente dele:
Os desastres de Sofia, Condessa de Ségur (ilustrações de Vieira da Silva)
"Já sei tudo, minha menina." - disse ela - "É uma pequena mentirosa. Se me tivesse dito a verdade, dava-lhe um ralhete, mas não a castigava. Mas assim, vai ficar um mês sem montar o burro, para aprender que não se dizem mentiras."
P.S. Foi mesmo ao acaso! No coments, please! ;)

Del amor y otros demonios, Gabriel García

"Le mandó razón de que olvidara sus rencores y regressara a casa, para que ambos tuvieran con quién morrir."
p.s. Mad. já não estamos zangadas, mas para a próxima manda camarões e não batatas quentes!