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quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dia de Pessoa

Fernando Pessoa
(13 de Junho de 1888 - 30 de Novembro 1935)


Aprendi a sabê-lo quando ainda era pequenina e juntava as letras às duas de cada vez - Mar Portuguez. Gostava das quadras populares, porque eram fáceis de decorar. Achava-o um louco complicado que se desdizia e dizia num só verso, numa só estrofe. Hoje, leio por paixão e entendimento dos versos que sei de cor, das palavras que me enchem quando estou mais avoada, perdida em confabulações.




Tabacaria, de Álvaro de Campos, por João Villaret
(roubado
aqui.)


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

segunda-feira, 3 de março de 2008

MARIA GABRIELA LLANSOL


(Lisboa, 24 de Novembro, 1931 † Sintra, 3 de Março, 2008)

As palavras escritas numa vidraça embaciada pela chuva são sempre tristes. Não importa o seu verdadeiro significado.
(in "Intróito", de Os Pregos na Erva, 1962, 2ª ed: edições Rolim, 1987)

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Aos meus amigos



A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho

e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo

e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito

e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja

e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Parabéns miúda!

A Simone faz hoje 70 anos. Esta música lembra-me sempre um grupo de amigos que a cantava, recordando as músicas do Festival da Canção, em longas noites de Verão!




Lembrei-me dela para a dedicar a uma amiga que também faz anos hoje, infinitamente menos do que os da Simone, porque ainda é uma miúda. É menina de olhar atento, sorriso brilhante e palavras de magia. Nas nossas amizades dos dias, descobrimos os segredos uma da outra sem ser preciso dizer, porque nos olhares e gestos se adivinham. Dizes que já me vais conhecendo e mesmo assim ainda és minha amiga, apesar das mil imperfeições. Fazes-me rir, mesmo nos dias tristes e adivinhas os 'meus azuis' por dentro do azul dos meus olhos. E eu a achar que era boa actriz! No nosso caminho, saltamos as pedras e os muros e quando eu não tenho coragem lá me dizes - Não tenhas medo, tu consegues! E consigo! Os amigos são a nossa coragem nos dias mais escuros, são a nossa força para voar. Obrigada pela tua amizade! Um grande beijinho por hoje!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Se ele canta, eu danço!

Tem 83 anos, vem dia 23 de Fevereiro ao Pavilhão Atlântico e eu quero ir lá!
Não me desiludas, Aznavoice... c'est formidable!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Homenagem em vida

A propósito de uma entrada do sem-se-ver, relembrando o facto de só darmos importância a alguns quando morrem, ou quando ganham prémios, sendo que é nessas alturas que os lemos mais, que os citamos mais. Muitas das vezes já vamos tarde, não sabendo dar-lhes em vida o reconhecimento que merecem. Assim, lembrei-me de uma coisa que estou há muito para pôr aqui - uma homenagem, em vida, a António Ramos Rosa. Um poeta que me é especial, por ter o privilégio de o conhecer pessoalmente, de ter privado com ele, no lar de artistas onde está. Mas mais especial do que isso, o poder ter sabido dos seus poemas logo no dia em que os escrevia e reconhecer a sua calma, na beleza da sua poesia. Por isso aqui fica a minha homenagem e o meu sorriso de que tanto gosta, porque não esquecerei um poema que me dedicou. Mas hoje, deixo aqui um poema que dedicou aos alunos da Professora Raquel Andrade, que o souberam ouvir, atentos, como nunca ninguém nos fez estar.

Se eu não conhecesse o amor nem a inocência
nem a maravilhosa juventude
se eu não reconhecesse o rosto da vida
se eu fosse opaco
se eu estivesse empedernido
se eu não confiasse em nada
se eu fosse incapaz de u,m gesto de ternura
se tivesse perdido a inteligência da dança
e o meu saber não tivesse a sabedoria do saber
e do sangue
se eu tivesse perdido o dom da atenção ao ardor obscuro
da vida animada pelo desejo
eu teria renascido quando vos vi
eu teria respirado a pureza dos vossos rostos~eu teria renascido
eu teria entrado no adorável país
da juventude do sol.
(27 de Fevereiro de 2002)

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Tomás no Musicais

Ontem fui ao Musicais, no Jardim do Tabaco, para ouvir cantar o Tomás, o Miguel e o Filipe. Foi lindo. Não via o Tomás há mais de quatro anos e confesso que adorei reencontrar aquela voz, cada vez mais madura, mais maleável e encantadora, e aquele amigo divertido, simpático, com um sorriso encantador! O reportório foi fenomenal, as vozes e os acompanhamentos muito bons e, sobretudo, divertidos - como é possível estar com aquela descontração em palco? A diversão de cantar Surfin' USA (Beach Boys) e a beleza da voz do Tomás a cantar o Eu sei de Sara Tavares... Aquelas músicas fizeram-me lembrar tempos antigos de guitarradas e cantorias, num terraço virado ao mar na mais linda praia da terra portuguesa, momentos esses muito especiais e que recordo com imensa saudade e desejos de bis!

As minhas preferidas? Dois clássicos especiais: I just called to say I love you, do Stevie Wonder, porque a cantava muitas vezes ao telefone, e You've got a friend, de Carole King, porque me lembrou o Vasco, que me cantava sempre esta música.

Parabéns Tomás, lá estaremos para a próxima!


quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Does anybody know what we are looking for?

OBITUARIO

Muere el coreógrafo francés Maurice Béjart, gran divulgador de la danza contemporánea. Su compañía, Ballet del siglo XX, llevó esta arte al gran público.- Ha fallecido a los 80 años en Lausana, Suiza (in EL País)

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Homenagem a Dragomir Knapic

Faz hoje um ano que dissémos o último adeus àquele que foi, antes de tudo, um professor e um mestre para todos. Além das suas aulas e dos seus alunos, para cada momento, havia sempre uma história de Portugal, um pormenor do mundo, o nosso peso em cada planeta do Universo. Depois, foi pai, mas, mais que tudo, avô - o melhor do mundo. Lembro-nos a correr pela Barata Salgueiro, com o sorriso que só um avô pode ter. Para nós, era sempre o que quiséssemos, mesmo que isso significasse tudo... Corríamos juntos em pequenos e, quando crescemos, todos, continuámos a caminhar lado a lado. Hoje, um ano passado, lembramos com saudade, mas com lembranças felizes, um avô e de um professor que não vamos esquecer.

Para lembrar, uma música que lhe dedicámos, na voz da neta mais 'maluca' de todas, a Ana.




Quando Deus te desenhou ele tava namorando
Na beira do mar
Na beira do mar do amor
(...)
Papai do céu na hora de fazer você
Ele deve ter caprichado pra valer
Botou muita pureza no seu coração
e a sua humildade fez chamar minha atenção
tirou a sua voz do própolis do mel
e o teu sorriso lindo de algum lugar do céu
e o resto deve ser beleza exterior
mas o que tem por dentro para mim tem mais valor

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Fernando Guimarães - a simplicidade profunda

A Associação Portuguesa de Escritores atribuiu ao livro "Na voz de um nome" o Grande Prémio de Poesia 2006. Fernando Guimarães, 79 anos, natural do Porto, foi galardoado pela 2ª vez com esta distinção, a primeira foi há quinze anos com a obra “O Anel Débil” (Edições Afrontamento). A questão surgiu no “Público” de ontem: será desta que o autor, também tradutor, ensaísta e crítico literário, deixa de ser "um poeta português injustamente esquecido"?
(Vieira da Silva - Bibliotèque en feu)
A verdade é que este poeta aparece muito poucas vezes citado, recitado e nomeado, mesmo no meio literário, quanto mais na boca do povo. A sua obra entende-a como necessária – “Não para os outros, mas para mim. Mas se ela puder dizer qualquer coisa aos outros, se abrir um caminho de comunicação, então sentir-me-ei feliz. Mais nada”. No entanto, considera que a linguagem poética da poesia contemporânea não tem um reflexo imediato, como teve a poesia do século XIX, talvez por esta ser mais densa e hermética. No seu entender, a poesia é uma “experiência” – “uma experiência da linguagem, naturalmente, e também da imaginação. Realiza-se, assim, um encontro que não é propriamente com os leitores, mas com o espaço literário, com situações de leitura.”

Faço aqui a minha homenagem a um poeta de que gosto particularmente, pela simplicidade das palavras, mas pela densidade da mensagem, na medida em que se fundem a poesia e a filosofia, um eco das duas influências. Distingo o rigor expressivo da sua poesia, que Jorge de Sena sintetizou como "uma atmosfera visionária mas estranhamente tranquila".


Folheias um livro (poema inédito)
Folheias um livro.
Numa das páginas encontras um desenho
que está por concluir. Por alguma razão ficou assim. Talvez
sejam suficientes as linhas ali desenhadas. Numa praia
podem ser vistos alguns vestígios da água. Muitas vezes procuras
descobrir o sentido do que não precisa sequer de estar
junto de ti, porque houve mãos que já o sabiam. De novo a água
atravessa aquelas páginas. Fixas o teu olhar e recebe-la
para que também sejam as tuas mãos capazes desse conhecimento. Depois
principiaste a ver melhor o que nem sequer existia. Fechas
o livro devagar. O desenho que tinhas encontrado está agora completo.