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quinta-feira, 10 de abril de 2008

Atenção pecadoras!!!

Rosário Andrade - Adão e Eva (2005), encontrado aqui.


Para as minhas amigas, para que não se deixem levar por maus caminhos:


Hoje ando em arrumações na Biblioteca, a tirar de um lado e a pôr do outro. Os livros passeiam-se de estante em estante e aproveito para limpar o pó, entre dois espirros de alergia. A música canta alto e eu com ela. Danço com a vassoura, com o pano do pó e com um ou dois livros mais pesados. Às vezes páro para descansar, quando algum livro me seduz mais.

É o meu grande problema neste emprego - o jogo de sedução. Olho para as estantes e perco-me com os títulos, levanto-me, vou ter com eles e trago-os para o pé de mim. Abro, começo a ler, continuo, mais um bocadinho, só mais uma página e já perdi imenso tempo. Ando aqui numa luta entre a emoção e a razão (um duelo clássico!). Ontem foi o Tratado de Cozinha e de Copa do Bento da Maia. Hoje ando aqui às voltas com o Pureza e Formosura do Dr. Tihamér Tóth (professor da Universidade de Budapeste), de 1953, dirigido às donzelas, apelando à sua pureza!

Diz a Introdução: 'É para conservares a tua alma sempre cristalina que escrevo este livro.' Já estou no segundo capítulo e estou a rir à gargalhada. Não aguentei não partilhar e já tirei cópias dos melhores sub-capítulos. Acabei de ler agora o Sedução pecaminosa. Diz assim: 'O desabrochar de nova vida é sempre acompanhado de profunda alegria. Contempla a natureza da Primavera: o sol brilha, canta nos salgueirais o rouxinol, a brisa corre mansamente, zumbe a abelha, o regato murmura!'


Avancemos... Pura e bela:


'Tens o dever sagrado de guardar estes desejos e tendências até ao dia em que te apresentarás diante do altar do Senhor, onde o teu futuro marido te receberá pura e branca como a neve.'


Antes do casamento, nunca, seja pelo motivo que for, hás-de dar satisfação a estas tendências e nem sequer prestar ouvidos a vozes sedutoras.


Fora do matrimónio não é lícito cnsentir, com conhecimento e plena deliberação, em pensamentos, desejos, sensações e actos que se refiram à chamada 'vida sexual'. Está vigilante e não consintas em tais pensamentos, olhares, conversas ou acções.
(...)


Cara donzela, queres conservar-te pura?


Há raparigas que, infelizmente, não vigiam, que, sem receio, caminham pela vertente que leva ao precipício. Ai dauquela que começa a descer! Ai daquela cuja alma, em plena Prmavera, apanha a geada duma noite de Maio!'


(...)


Cuidado! Cuidado com os olhos! Não permitas nunca, sob nenhum pretexto, que eles se fixem em nada que possa ofender no mínimo a pureza da tua alma. Não esqueças que no mundo actual pulula em torno de ti uma multiplicidade de inimigos.
(...)
Sabei que se uma jovem é, desde há muito tempo, escrava do pecado de impureza, a sua libertação será difícil, dificílima.
O segredo está em... conseguir passar algumas semanas, alguns meses sem pecar.'
Ainda terei salvação??????

sexta-feira, 14 de março de 2008

Cantinho da Biblioteca (V)

De todas as paixões a que nos é mais incógnita é a preguiça. É a mais ardente e a mais maligna de todas, ainda que a sua violência seja imperceptível e que os seus danos se escondam. Se observarmos com atenção o seu poder, notaremos que ela se torna sempre mestra dos nossos sentimentos, dos nossos interesses e dos nossos desejos. Ela é a demora que tem a força para fazer parar os maiores navios, é uma calmaria mais perigosa para as grandes empresas do eu do que os bancos de areia e do que as maiores tempestades. O repouso dado pela preguiça é uma sedução secreta da alma, que pára de repente as lutas mais inflamadas e as resoluções mais obstinadas. Enfim, para se dar uma verdadeira ideia desta paixão, é preciso dizer que a preguiça é como que um estado de beatitude da alma, consolando-a das suas perdas e ocupando o lugar de todos os bens.


François La Rochefoucauld, in Reflexões.

terça-feira, 4 de março de 2008

Cantinho da Biblioteca (IV)


Um único minuto de reconciliação vale mais do que toda uma vida de amizade.
in
"Cem Anos de Solidão" Gabriel García Márquez

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Cantinho da biblioteca (III)


Richard Wagner - Tristan und Isolde

dirigido por Georg Solti (21 October 1912 – 5 September 1997)

O livro que vão ler

Quis, desta vez, contar-lhes a história de um músico, de um desses homens que escrevem com um alfabeto de estrelas num riscado de cinco linhas, e destas arrancam as mais belas e estranhas harmonias, com se elas fossem as cordas de uma harpa.


in O piloto do navio fantasma - pequena história de Wagner e da sua música genial, Adolfo Simões Müller

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Cantinho da biblioteca (II)

Ludwig Kirchner
Die Artistin Marcella

Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

(in soneto 'Busque Amor novas artes, novo engenho' de Luís de Camões)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O nosso tesouro...

A M. foi a minha primeira amiga em Lisboa! Tinha eu acabado de chegar da minha infância no campo, onde a liberdade quase não tinha limites, quando a conheci, no primeiro dia de aulas. Ficámos logo muito amigas, as melhores. Vivíamos perto uma da outra, voltávamos juntas da escola e foi com ela que partilhei todos os anos até ao fim do liceu. Foi uma amiga sempre, mesmo que depois nos tenhamos separado um pouco, ela sabia sempre quase tudo sobre mim e ainda hoje, quando nos vemos, ficamos horas à conversa… já é feitio, se havia repreensão a fazer-nos na escola era sempre a mesma: faladoras.

Na sala de aula, copiávamos desde sempre uma pela outra, mandávamos bilhetinhos e escrevíamos cartas de amor em conjunto aos nossos respectivos amores. O D. gostava de mim, mas era a ela que lhe tremiam as pernas quando ele aparecia na sua bicicleta verde. As nossas conversas à porta da escola eram feitas em 'estrangeiro', para nos armarmos em crescidas, mas aquilo não era língua nenhuma, nem nós nos percebíamos. Cantávamos a Laura Pausini com as letras todas trocadas. Depois das aulas, passávamos horas ao telefone e eu sentia o cheiro do arroz-doce da mãe dela através do telefone! Andávamos sempre à chuva, porque nunca gostámos de guarda-chuva, mas antes de ela ir para casa ia secar a roupa e o cabelo à minha. Crescemos sempre juntas e fomos andando de escola, sempre juntas.

Juntas vivemos a maior aventura, armadas em espiãs de alta classe – descobrir o que estava para lá de uma porta fechada a sete chaves, numa sala ao fundo da nossa escola. Como boas espiãs levámos luvas para não deixar impressões digitais e lanternas para espreitar pelo buraco da fechadura. Tentávamos arrombar a porta, mas isso fazia muito barulho e, magrinhas como éramos (ela ainda é!), não íamos ser capazes. Só havia uma maneira de lá entrar: saltar uma parede que não ia até ao tecto ou, pelo menos, espreitar por ela… foi ela que o fez, porque era mais alta! Mas foi também ela que se magoou, porque eu a deixei pendurada na parede, sem a ajudar… não tinha forças. Nunca chegámos a saber ao certo o que lá estava. Sabíamos que eram livros, outras coisas, nada de importante para nós, que julgávamos ir encontrar cadáveres e tesouros (imaginação fértil!). Mas, para nós, foi como descobrir o baú do tesouro e ele estar vazio. Uma desilusão.

Desde então que não penso nesta história, mas, na sexta-feira, falava eu da minha biblioteca, num primoroso jantar em casa da minha mãe (como são todos os que ela faz, assim se conserve!), quando me disse:

- Sabes, os livros da tua biblioteca estiveram anos fechados numa sala da escola primária! Uma sala lá ao fundo, que estava sempre fechada. Lembras-te?

E eu só tive tempo de abrir um sorriso e de dar pulos de alegria – afinal. aquilo era mesmo um tesouro e agora era meu! Nem queria acreditar! E esteve à minha espera, à espera de que eu pegasse em cada um dos livros e os ordenasse, para depois partilhar este nosso tesouro com o mundo. A vida é maravilhosa, estas coincidências são sempre deliciosas.

Por isso Mada., hoje partilho contigo este nosso tesouro e espero uma visita tua, para que possamos apreciá-lo as duas!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A nova geração...

Para acabar com os preconceitos e mitos do carrapito, da saia lápis, dos óculos na ponta do nariz e ausência de beleza... eis a nova geração de bibliotecárias... EU!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Cantinho da biblioteca (I)


A minha vida faz-se ao contá-la e a minha memória fixa-se com a escrita; o que não ponho em palavras no papel, o tempo apaga-o!

(Isabel Allende in Paula)