sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Fim-de-semana delicioso

Bem, vou fazer uma pausa, não para pensar, mas para comer... Esta é a antevisão do meu fim-de-semana gastronómico! Deixo-vos com uma fotografia e um piscar de olhos aos mais invejosos.
Notas de fim-de-semana aos amigos:
Miguel: vê lá se o parto é este fim-de-semana;
AV: boas arrumações e lá nos encontraremos depois;
Mad: não morras de inveja, quem engorda sou eu;
Huck: vamos ver quem engorda menos;
Ana L. Costa: um beijinho especial desta amiga;
Madrinha: trago-te um doce, tu mereces!

São graças dos olhos do meu coração

Aqui fica, na voz de Uxia, o poema de Camões Verdes são os campos, com música de Zeca Afonso, porque me lembra outra vez uns olhos e porque houve um pedido de música galega... e alguns desejos são ordens...



P.S. Ao Miguel, esperando que se desenterrem os mortos. Vá lá... estamos curiosos...

Cais das codornizes (II)


À primeira vista é uma música de Chico César, que lembramos cantada pela Daniela Mercury, no seu Feijão com Arroz (1996). Mais recentemente, descobrimo-la cantada por Pedro Guerra num dueto com o autor... en bilingüe!

A voz da Daniela lembra as tardes de Verão, ao pôr-do-sol, num pátio virado à Berlenga... a versão do Pedro e do Chico recorda os últimos serões românticos e algumas danças de princípio de noite.



Quando o olho brilhou, entendi,
Quando criei asas, voei
Quando me chamou, eu vim
Quando dei por mim, estava aqui
Quando lhe achei, me perdi
Quando vi você, me apaixonei

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Os teus olhos são peixes verdes

Porque esta é a música que se passeia pela minha cabeça. Porque se passeia nesta versão, da Gal Costa, na sua voz de disco de vinil e de Djavan. Porque é o que me apetece ouvir e partilhar. O poema? É porque me lembrei de uns olhos verdes...




(...)
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.
(...)


Adeus de Eugénio de Andrade

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Cais das codornizes


Nasce hoje uma rúbrica interblogueira - o cais das codornizes. A ideia nasceu a propósito da música Tes Gestes, que o meu cais e o codornizes publicaram em duas versões.

Nesse dia, ouvimos Georges Moustaki e Serge Reggiani. Hoje, o cais volta a Moustaki e Barbara canta no codornizes. A música é La ligne droite. Esperem por mais duetos...

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Remédio Santo

No próximo fim-de-semana, sabem onde vou? Não é para fazer inveja, antes um convite a quem quiser por lá passar.

Horários: das 10 h às 23 (Dia 18 encerra às 21h)

"As receitas conventuais saíram dos conventos e dos mosteiros de Portugal e Europa, para se instalarem no Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. A Mostra de Doces e Licores Conventuais permite saborear, durante quatro dias, verdadeiras maravilhas deixadas pela presença dos monges e monjas Cisterciences. Castanhas de ovos, Pão de Rala, Pão-de-Ló de Alfeizerão, Gradinhas e as Delícias de Frei João, são alguns dos exemplos da diversidade da doçaria que pode ser encontarda durante o evento. Os licores de Ginja de Alcobaça e Singevergam que ao longo dos séculos foram rodeados de secretismom serão tentações disponíveis a todos os que visitarem o Mosteiro." (in folheto promocional)

Já fui uma vez e acreditem que é um verdadeira maravilha... só ovos e açúcar... Por isso, o conselho é ir de barriga vazia, assim mesmo sem tomar o pequeno-almoço e muito menos o almoço e guardar muito espaço, para poder provar de tudo, incluindo os licores. Para prevenir possíveis quilos a mais, começem a dieta hoje mesmo, para que no 'dia D' a possam esquecer... Dizem, e se não dizem invento eu aqui mesmo, que todas aquelas doçuras fazem bem a tudo, até porque vêm do Convento - são remédio Santo.

Mas para aqueles que não puderem ir, ponham as mãos na massa e comecem a cozinhar:

Cornucópias
(Receita para 20 pessoas )

I N G R E D I E N T E S
Para a massa: 250 g de farinha; 3 colheres (sopa) de manteiga; 1 colher (chá) de fermento em pó; sal q. b.; azeite ou óleo (para fritar); açúcar e canela (para polvilhar)

Para o recheio: 1 chávena (almoçadeira) de doce de ovos-moles

Preparação: Misture a amasse a farinha, a manteiga, o fermento, o sal e a água até conseguir obter uma massa própria para tender. Tenda a massa com a espessura de cerca de 2 ou 3 mm. Corte em tiras de 1.5 cm de largo, e enrole em espiral, partindo de cima para baixo em forma de cornucópias, aconchegando bem. Frite em azeite ou óleo, ou mistura dos dois, a 160 ºC. Retire as cornucópias, passe-as por açúcar e canela e recheie com o doce de ovos-moles. (Receita retirada do livro: “Doçaria Conventual na Mostra de Alcobaça”- Chefe Silva)

Nota 1: Mad. estou a pensar especialmente em ti e, para não haver mais zangas, prometo comer uns docinhos por ti! Não me importo mesmo nada... ;)

Nota 2: Madrinha, espero que esta entrada anime os teus intervalos de trabalho árduo. Se tiver tempo, eu mesma faço o doce da Praia e levo-te aí uma tacinha pequenina, para não engordares.

Página 161, quinta linha

Também fui apanhada na corrente da "Página 161" e, como tenho muitos e bons amigos, fui apanhada logo duas vezes no mesmo fim-de-semana. O procedimento é fácil:

1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica acaso e não escolha.
2. Abra o livro na página 161.
3. Na referida página procure a 5.ª frase completa.
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada.
5. Passe o desafio a cinco bloguistas.

Então eu passo a corrente aos meus mais recentes marinheiros, que, por causa disto, se calhar nunca mais cá aportam:
- 1 vez por semana do Myself
- Assim faliu Zarathustra do Tertuliano
- Pinguins que eles são muitos.

Aqui deixo as minhas duas partilhas, uma para cada corrente, de dois livros que estou a ler:

Para o Codornizes, porque este foi um presente dele:
Os desastres de Sofia, Condessa de Ségur (ilustrações de Vieira da Silva)
"Já sei tudo, minha menina." - disse ela - "É uma pequena mentirosa. Se me tivesse dito a verdade, dava-lhe um ralhete, mas não a castigava. Mas assim, vai ficar um mês sem montar o burro, para aprender que não se dizem mentiras."
P.S. Foi mesmo ao acaso! No coments, please! ;)

Del amor y otros demonios, Gabriel García

"Le mandó razón de que olvidara sus rencores y regressara a casa, para que ambos tuvieran con quién morrir."
p.s. Mad. já não estamos zangadas, mas para a próxima manda camarões e não batatas quentes!

domingo, 11 de novembro de 2007

Verão de São Martinho

Hoje foi dia de magusto!

O que me apetecia mesmo era ter acendido a lareira, ou na rua a fogueira, para assar as castanhas. Bem sei que este fim-de-semana o Verão vinha a tempo certo, era o de São Martinho a fazer cumprir a lenda. Mas tive pena pelo dia de sol e pelo vento que não soprou, porque a ideia era assar as castanhas à lareira. Mas não havia o devido frio e ninguém me quis fazer a vontade. Não se acendeu a lereira. Assámos as castanhas no fogão, abrimos pipa e provámos a água-pé e ainda bebemos a jeropiga de que eu tanto gosto. Uma mesa bastou para que a tarde fosse bem passada. Afinal, foi feita a minha vontade - no São Martinho: castanhas, jeropiga e vinho, mas não te esqueças do teu vizinho, como diz o provérbio.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Noviembre

Porque Noviembre se marcha y nos deja hojas secas, mas, sobretudo, porque tenho saudades de Madrid, deixo-vos com esta crónica de Manuel Vicent - Noviembre - que saiu no El País de Domingo passado.


En algunos pueblos marineros existe la costumbre de arrojar flores en alta mar el día de difuntos en homenaje a todos sus náufragos. El mar tiene memoria y puede que ese día recuerde el nombre de todas las almas que se ha tragado. Me gustan los cementerios marinos porque en ellos el aire azul cargado de sal parece penetrar como un don hasta el fondo de las tumbas más cerradas. En el cementerio de la isla de Strómbroli los muertos oyen los cañonazos que emite el volcán cuando vomita fuego con una cadencia medida desde el fondo de los siglos; sienten también el oleaje del mar que eleva montes de espuma hacia sus despojos; perciben igualmente el silencio de los halcones que para cazar atraviesan el espacio, cerrados como una navaja, hasta sumergirse en el agua donde atrapan el pez que han avistado y luego se elevan llevándolo entre las garras para devorarlo sobre una tumba arruinada. En las salvajes islas de Aran, al oeste de Irlanda, contra las losas mortuorias corroídas por el salitre y coronadas con la cruz gaélica, el ventarrón lleno de lluvia dobla sobre los muertos las briznas de anís de forma peremne. En el cementerio de Rabat todas las creencias acaban por diluirse en el mar convertidas en una sola fe, porque las olas azules son todos los dioses al mismo tiempo, que cambian continuamente de forma y sólo exigen ser navegados. El día de difuntos la gente lleva flores a sus muertos. En algunas culturas se establece el rito de ir con comida al cementerio y abrir las cazuelas sobre las lápidas para compartir con los deudos guisos de carne, buñuelos y huesos de santo. Aparte del poema de Paul Valèry, si tuviera que elegir un cementerio marino entre todos los que conozco escogería el mar en sí mismo, que es el que más horizontes abarca. Ayer, día de difuntos, fui a la orilla del mar y lo contemplé como un inmenso ser vivo que alberga las cenizas y la memoria de seres que he amado. Recordé sus nombres. Estos muertos se han convertido en oscuros e invisibles navegantes cuyo espíritu flota sobre las aguas. En la playa había mucha gente desnuda tomando el sol de noviembre y desde el chiringuito llegaba hasta el alma de los muertos un olor de calamares.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Mes gestes...

Um presente que me chegou...


(Tes Gestes - Georges Moustaki)

Plus tendres qu'un aveu
Tes gestes me désarment
Ta main dans tes cheveux
Ou qui sèche une larme
Tu mêles savamment
L'innocence et le charme
Ta jupe de quinze ans
Et tes jambes de femme
Tes bras encor si frêles
Deviennent rassurants
Quand tu donnes à l'enfant
Ta douceur maternelle
Dis-moi qui t'a appris
A effleurer ma bouche
Toi qui suces ton pouce
Quand tu es endormie

Linha d' Água


Linha d`Vento
Brisa que ondula meus cabelos
e arrepia os teus pêlos
nos braços desnudos

Linha d´Água
Que nos percorre
E que como nós
desagua num tal abraço
apertado sem fim

Linha d' Amor
que nos persegue
E que perseguimos
Quando passeamos no éter
De mão dada
Enredados pelas redes de um barco
Que nos solta a navegar
Ilusões e sonhos
Escondidos nas nuvens
Que não são nada
Quando sou o tudo contigo

Linha d' Água
Linha d' Vento
Linha d' Amor
que terminam em cada fim
de cada encontro
fugaz e mágico
que terminam em cada fim
num adeus das mãos dadas.

Mini-narrativa (I)


Longa a noite de solidão, entrecruzada por cigarros apagados num cinzeiro azul.
Medo da doçura de um beijo que não chega ainda aos braços dos amantes, hoje dispersos...
- Amas-me?
- Quem? A ti?
- Não sei... a nós.
- ...
Quero-te inteiro em mim!, mas esta noite apenas resta o desejo, mais quente do que a vontade e a esperança de que chegues devagar, sem fazer barulho, para pentear os meus cabelos com teus dedos morenos, desenhar o meu corpo com as tuas mãos grandes e deitar-te a meu lado. Deixo a luz acesa, para o caso de te perderes... apaga-a quando entrares nos meus lençóis e acende a luz da paixão, que os nossos corpos faiscam ao se entrelaçar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O PIANO

Não vou ser a primeira a fazê-lo, mas roubar 'animais' do ZOO é irresistível, que me perdoe o dono dele, mas não pude deixar de pôr este vídeo.

Tu tens um medo

Dize:
O vento do meu espírito soprou sobre a vida.
E tudo que era efêmero se desfez.
E ficaste só tu, que és eterna ...

VI
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

VII
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...

XXIII
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.

XXV
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!

XXVI
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...

Cecília Meireles (1901-1964)

Nota 1: Ao B. que tinha um medo... mas já não tem.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Sé que volveremos...


Madrid parece já estar tão longe e ainda ontem chegámos. Foram quatro dias memoráveis. Embora o Outono lá arrefeça os corpos, coisa que já vi que por cá continua sem o fazer, consolou-me aquele sol brilhante do Jardim del Buen Retiro e da Plaza Mayor, que aquece qualquer coração.

Mas Madrid tem sempre aquele encanto, aquela alegria de chegar mais uma vez… acho que pela oitava! E desfrutar, sem pressas, sem horários, sem compromissos… quase como pairar sobre a cidade, vendo tudo e todos, fazer parte, entrelaçar entre as ruas do Lavapiés, calquinhar o barrio de Salamanca cheio de niños pijos, acabados de sair da missa dominical, entrar e sair das tiendas em que nos dê ganas , procurar meticulosamente os sítios de almoço e de jantar, e de tapeo… Encontrar a a minha tia e ter o prazer de almoçarmos juntos… comer pulpo, calamares, tortilla e pimientos padrón – unos picán otros no! Jantar com os amigos, em casa, com a lareira, bom vino e muitas anchoas… uns amigos que nos recebem sempre bem!

Querer ver tudo e estar em tudo… viver como madrileños até tarde, mas acordar cedo, seguindo a velha máxima de que deitar tarde e cedo erguer dá para ver tudo! Andar a desoras da maioria dos transeuntes - ir ao Prado de madrugada e levar o pequeno-almoço para a cola, levar sempre o El País para poder ter algo que leer, beber muito vermouth de grifo em qualquer sítio, mas melhor que seja no Anciano Rey de los Vinos, onde põem umas tapas óptimas, mas onde não resisto às bravas. Nos entretantos, ir fazendo uma lista mental de tudo aquilo que temos de comer e onde, para não deixar passar nada! Beber muitas copas e comer muitas tapas, passear muito até não poder mais e descansar nuns braços abertos ao som de música cubana. Tentar acabar a noite com um chocolate quente e churros, mas não resistir a mais um mojito, para dar forças para o caminho de casa. Mas ainda dá tempo de dançar no meio da Plaza Mayor a Balade pour Adeline, que alguém toca numa espécie de xilofone, passar os dias a ser perseguido pelas Feuilles mortes e achar que isso é uma coincidência feliz. Subir à cúpula da catedral e ver Madrid de cima, como um voo da codorniz, sobrevoando a Plaza de Oriente, mesmo em frente Palácio Real, e pousar sobre um banco do jardim entre duas estátuas de anteriores reis, não conseguindo imaginar que estas tenham podido estar, originalmente, no telhado do palácio. Mas saber que o melhor de tudo é dançar La vie en Rose e fazer poesias ao vento...

Arranjar os dois últimos bilhetes para o musical dos Mecano e cantar as músicas todas, ou pelo menos as que sabemos! Perceber que a loucura da movida madrileña é contagiante e que se pode aguentar se forem quatro noites e mesmo assim acordo a cantar 'Hoy no me puedo levantar, el fin de semana me dejo fatal; toda la noche sin dormir, bebiendo, fumando y sin parar de reir…' O que nos leva a beber Campari con Naranja no intervalo enquanto Nacho Cano (él mismo!) nos dá um autógrafo! Mas ter a certeza que é possível seguir outros motes e 'hacer lo que podamos por cenar perdiz', no Botín. Não deixando por isso de resistir às croquetas e às almejas… quase à meia-noite, com o restaurante quase privado, sem ter reserva mas ter um sorriso que conquista qualquer camarero e que não fez a desfeita a esta niña!
Antes disso ainda aproveitar um chiringuito aberto e tapear um pouco mais, uma cecina de León (ai que saudades das Castilla e León!) e una tapa de bacalao con aceite de oliva, se bem que ainda haja uns sortudos a quem regalan una tapa de cabrales!

Passar horas na exposição da Paula Rego a ver cada pormenor em cada quadro que nos arrepia, porque há sempre um pormenor que confrange e que destrói a candura de alguns contornos e gestos. A presença do elemento animal, metáfora de uma animalidade maior do ser humano, mas também máscara para uma realidade demasiado dura. A pintora diz que resulta mais com rostos animais. Adorar os estudos dos quadros, por ser tudo mais pequenino, até aquilo que nos perturba. Gostar do quadro do Baile, mas gostar mais ainda dos estudos para esse quadro e de saber como Paula Rego o foi criando, e de o saber pela voz dela. Saber que a seguir ainda podemos subir e ver Dalí e Miró, passar só para ver aqueles de que gostamos mais! Comprar todos os postais de todos os quadros que me encantan e oferecê-los a quem me encanta também! São pinturas com poesias dentro…

Subir a Castellana até à Fundaccion Canal, mesmo ao lado das torres inclinadas só para ver a exposição – Ocultos - una exposiccion preciosa cujo mote é: 'Si la cara es el espejo del alma, no existe nada tan corporal, tan carnal como el culo'. Vale pelas imagens e por toda a disposição das fotografias, com uma decoração particular, merecedora de elogios e de visita!
Saber que antes de voltar para casa, ainda há tempo para ir ao Círculo e ver os Momentos Estelares - la fotografia do século XX, uma parte de uma grande exposição de fotografia, muito bem organizada e bem explicada, para os menos entendidos na história da fotografia!

E no fim, a melancolia do regresso, sem deixar de passar pelos sítios onde fomos felizes… em quase todos… em Madrid...

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Pausa em Madrid

Madrid é o meu próximo destino! Solto as amarras e parto por quatro dias para outro cais. Passar lá o Pão-por-Deus, esperando que alguém por cá guarde umas doçuras para mim. Palmilhar as ruas madrilenas, que já não vejo há nove meses e de que tenho infinita saudade. Sim, 'talvez se chame saudade' aquilo que sinto quando penso na melodia das vozes castelhanas, na alegria das noites em bares, a 'tomar una copa' como no Montes, do frenesim de museu em museu, querendo ver toda a arte e todas as artes. Do pequeno-almoço a tarte de 'membrillo' e de comer 'yuca' num bar mexicano, de apanhar sol no Retiro, para descansar de tanto andar. Saudades das tapas todas, da Plaza Mayor e dos seus artistas, do Vermouth 'de grifo' no 'Anciano rey de los vinos' perto da palácio real, das compras em Chueca, do chocolate quente com churros em San Ginés a acabar a noite, das perdizes do Botín e do resto que é sempre novidade, sempre bom... Mas uma certeza: a tristeza de ter de voltar...




Bebiendo y charlando
riendo y bailando,
bailando y bailando,
va pasando el tiempo
no hay nada como las noches de verano,
no hay nada como las ganas que te tengo.
Noches de Siroco, terracita Antón Martín,
y ese bar de Tirso que te gusta tanto a ti,
por la espina dorsal de la gran vía
derrapa una sirena de la policía
Y qué gusto da estar enamorado
y pasear contigo del brazo.
Traigo rosas rojas para ti,
eres mi rincón favorito de Madrid.

Pão por Deus

Antecipando o feriado do 1 de Novembro, em que não estarei por cá, para partir para outro cais por uns dias, deixo-vos com uma recordação dos tempos de meninice - o Pão por Deus!

Lá vai o meu coração
Sozinho sem mais ninguém
Vai pedir o Pão-por-Deus
A quem quero tanto bem.


Na minha infância, vivida na vila de Atouguia da Baleia, bem perto do mar do Baleal, na manhã do 1 de Novembro saía-se à rua a pedir Pão por Deus. Saíam as crianças batendo de porta em porta, gritando:
- Pão-por-Deus! - esperando que do outro lado abrisse a porta um sorriso com um cesto cheio de doçuras! Era uma festa, uma data antecipada em muitas conversas, relembrando os anos anteriores, contabilizando os doces conseguidos, que eram como troféus! Sabíamos que nos iam encher o saco de pano, alguns meticulosamente bordados, de doces e de coisas boas! Todos gostávamos e sabíamos que cada um dava o que podia e dava com o coração! Mas o melhor mesmo eram as casas dos amigos, onde recebíamos sempre mais do que nas outras e éramos tantos amigos! A Rita, a Filipa, a Magda, a Sandra... tantos, tantos! Nada poderia fazer-me mais feliz - chupas, doces, chocolates, mas os mais antigos davam tremoços, pevides, amendoins, fruta, broas e frutos secos e os mais generosos uma moedinha, talvez dez escudos, o que ainda dava para quatro pastilhas gorila na taberna ao pé da escola, lá eram só dois e quinhentos! Velhos tempos!

Quando vim viver para Lisboa, aos oito anos, tive muita pena de não haver por cá esta tradição. O mais parecido que havia era, em Junho, pedir-se uma moedinha para o Santo António, mas não havia doces para ninguém, apesar de as moedinhas darem para muitos doces na mercearia do Sr. Fernando. Eu via as minhas amigas comprarem, mas eu não tinha essas moedinhas, que a minha mãe não me deixava andar na rua! Coisas da cidade!

Mas hoje, é desses tempos e dessa terra onde a liberdade se ganha na infância e a inocência nos deixa a correr horas sem fim pelos campos e pelas ruas, sem medos, sem tempo... Hoje, são essas recordações que ficaram, de uma manhã a bater de porta em porta, a encher de sonhos um saco de alegria - nada melhor do que um doce para fazer feliz uma criança e quem corre por gosto não cansa. Se pudesse ainda ia ao Pão por Deus, mas já estou crescidinha, resta-me o consolo de um saquinho que me fica destinado em casa da Avó Lena, cheio de Bolas de Neve e que como, tal como dantes... todas de uma vez!
Nota: corrigido após comentário de um anónimo

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Bob Marley - Three Little Birds, por Gilberto Gil

Hoje esta música veio ter comigo num passeio pela Internet e decidi que tinha de a pôr aqui, porque me faz lembrar alguém que a canta como ninguém!

Ana, minha querida irmã: 'This is my message to you-ou-ou...'


segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Walking in the air...

Pedro: um presente para me levares a passear no céu...

A uma amiga

Há dias em que percebemos que a vida é feita de pequenos nadas, que rapidamente se convertem no quase tudo do nosso dia. São os pequenos gestos, sorrisos e abraços que nos confortam, que nos permitem celebrar a magia da vida ou onde nos deixamos nos dias de lágrimas.

Hoje escrevo aqui para agradecer um presente muito especial que recebi e que há muito, muito mesmo desejava - uma caixinha de música. Não se abre, apenas se dá à manivela e imaginam-se os músicos lá dentro a tocar e as bailarinas a dançar. De dentro vem a melodia da Flauta Mágica, de Mozart. Nada mais perfeito.

domingo, 28 de outubro de 2007

Gelo e sombra


Tu és só gelo e sombra

ausência de som

silêncio mudo

corpo nu, perdido

sonho inquieto, vazio.



Tu és preto e negro

branco no traço

contornante do teu gesto

e mãos

que desenham em segredo

o tropeçar dos nossos corpos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Más adentro...

Inspirada pela M., que me fez lembrar de um filme de que gostei e de um poema que ouvi vezes sem conta... que acho que já o sei de cor! Além disso, recordações de uma sesssão de cinema em Oviedo, num dos passeios por Espanha, que tão depressa quero repetir. Dá um friozinho...


Mar adentro, mar adentro,

y en la ingravidez del fondo,

donde se cumplen los sueños,

se juntan dos voluntades

para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida

con un relámpago y un trueno,

y en una metamorfosis

mi cuerpo no es ya mi cuerpo;

es como penetrar al centro del universo:

El abrazo más pueril,

y el más puro de los besos,

hasta vernos reducidosen un único deseo:

Tu mirada y mi mirada

como un eco repitiendo sin palabras:

más adentro, más adentro,

hasta el más allá del todo

por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre

y siempre quiero estar muerto

para seguir con mi boca

enredada en tus cabellos...

Medo

Medo,
quando tudo se parece perder
e nem o cais é de encontro.

Medo,
quando tudo escorre
por entre os dedos de uma mão cheia.

Medo,
quando tudo acaba
ainda antes de começar.

Medo,
quando tudo queima e arde
como folha de papel na lareira.

Medo,
do silêncio da voz
e da agitada consciência.

Medo,
quando tudo é nada
e nada parece ser o fim.


Medo que dá medo do medo que dá!




Nota: dedico esta música à Madrinha, que ajuda a escapulir ao medo que às vezes nos aperta o coração. Acho que gostas desta!

Aos outros marinheiros, espreitem a letra aqui, vale a pena.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Um cheirinho da minha ilha

O meu Baleal, a minha ilha, onde o Inverno passa o Verão e que o sol visita em dias invernosos de Janeiro, fica na zona Oeste de Portugal, perto da pêra-rocha do Bombarral, da ginjinha de Óbidos, dos dinossauros da Lourinhã, das compotas do Toxofal e das rendilheiras de Peniche, dos burros de Ferrel, das conquilhas da Foz, do castelo da Atouguia e das trouxas de ovos das Caldas.

Ali, no meu paraíso, passamos o Verão, mas a praia é mais nossa no Inverno, no mar revolto e na areia varrida pelo vento, nas rochas, escarpas que o mar doira com a sua espuma. Gosto de o ver no Inverno, de chegar pela manhã ou pela tarde, à paz do mundo em rebuliço, magia de uma solidão tão bem acompanhada. De ficar a dormir nas noites em que o frio não acaba e a madrugada amanhece distorcida, sem se ver o mar. Mais perto ele é branco, ele é verde, azul ou algas. Mas é meu.

O sol, esse, põe-se ao largo da Berlenga e vemo-lo poisar, no mar ou na ilha, os seus últimos raios. Magia sem fim, essa ilha de amantes e de amores, primeiros ou segundos, ou terceiros, sempre ilha de amores. Magia do nevoeiro matinal de um dia de Agosto, de um dia outonal, como se alguém fosse chegar. Tarde de pescadores da praia dos seus barcos, esperando que peixe fresco chegue à lota à beira-mar, perceves e bom peixe da ilha, da entre ela e a das Pombas, sempre coberta de gaivotas! Ao largo, outra ilha, a das Cebolas, que da árdua subida, recompensa a alegria com a ilha deserta que o mar eterno e infinito rodeia, a ver surfistas controlar o mar, de pé ou em pino, fazendo de bailarinos das ondas. Praia, duas, com areais imensos... caminhantes, piqueniques, passeios longos, areal imenso esperando as nossas pegadas, impressões do corpo nesse espaço tão nosso. Ir até lá longe, onde ninguém vê, onde as gaivotas passeiam a nossos pés e as ondas são mais puras e brancas, onde o mar é mais entusiasta a beijar os nossos pés, já cansados de calquinhar o passeio do mar! Pescadores de cana, vultos no horizonte, que aos poucos se assilhuetam ao nosso olhar, tão perdido em maravilhas!

Baleal, a minha praia, a nossa praia, onde um dia o sol de Verão apareceu ao Agosto e depediu-se dele com um raio verde - magia de um olhar e de um amor que só poderia ter nascido ali! Baleal é meu, é nosso, o Baleal.

P.S. Um cheirinho da magia desta ilha que é nossa, um bocadinho de cada um. Aos marinehiros do Cais que por lá aportam, para lembrar o friozinho que por lá se sente e do qual, faça chuva ou faça sol, temos sempre saudade!


(Nota: as fotografias foram tiradas pelo Codorniz e por mim)

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A primeira chuva

A primeira chuva de Outono apanha-nos sempre desprevenidos: a roupa por apanhar, as sandálias, aquela camisa de manga curta... enfim, nada que não se possa resolver! Finalmente, parece que o Outono chegou! E estou contente com isso, gosto de ver o andar das estações, de ver as folhas cair e de ver as pereiras em flor, mas agora gosto de ter frio! Já uso a mantinha e, mais dia menos dia, hei-de usar o saco de água quente para me aquecer os pés! O dia está tristonho e cinzento, apetece ficar em casa a beber chá e a comer 'paizinhos' (receita da avó Hortense), enrolada numa manta a ver filmes, ou a ler um livro e a ouvir discos de vinil... Sabe tão bem... Mas não, a vida real chama-nos e pede-nos para trabalhar! Enfim, lá terá de ser! Mas nada melhor do que recordações. Deixo-vos um poema de que me lembrei hoje e que inaugurou a minha manhã, acompanhado de uma fotografia de um pôr-do-sol de Outono, no último Domingo... ainda a recordar o fim-de-semana romântico, a braços com panelas de doce!
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Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento
ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilante
só mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!
(António Ramos Rosa - Facilidade do Ar - Lisboa, Caminho, 1990)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Take this waltz...

A propósito de Leonard Cohen, que tem andado a ser a banda sonora da minha vida-musical nestes últimos dias, recordo mais uma das suas músicas. Esta, uma tradução livre de um poema de Federico García Lorca, embala-nos em danças em grandes salões de baile, que podem ser nada mais do que a nossa pequena sala, ou corredor! Para que ninguém vá dormir sem dançar um bocadinho... Arranjem par e deixem-se levar nesta valsa.


En viena bailare contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de rio.
Mira que orillas tengo de jacintos
Dejare mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografias y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mio, amor mio, dejar,
violin y sepulcro, las cintas del vals.

P.S. Dedico esta música ao meu par, para que venha do seu ninho, bater as asas aqui neste cais!

Resposta a uma provocação

Em resposta a uma provocação na blogosfera, aqui vos deixo esta delícia de anúncio. Não só pelo Martini, esse néctar que acompanha o pôr-do-sol, antecede jantares e fins de tarde na cozinha, entre amigos, mas também pelo protagonista do anúncio - George Clooney! Quem mais poderia ser? É sem dúvida Magnífico! O facto de ser a preto e branco dá ainda mais charme ao galã.
Se os poetas têm uma musa inspiradora, uma diva que os ilumina, eu, comum mortal, que tenho os poetas como almas de outro mundo, pelo peso da alma que carregam, tenho estes pequenos momentos magníficos da vida. São eles que me inspiram para escrever com os lábios, ou com o coração, pequenos sorrisos platónicos.

Um desejo: só gostava que ele me cantasse I´m Your Man!

Deixo-vos com a música, na voz do Leonard Cohen, para poderem imaginar, já que sonhar é para todos...

Cicatrizes felizes

As crianças mostram as cicatrizes como se fossem medalhas. Os amantes usam-nas como segredos a revelar. Uma cicatriz é a palavra transformada em carne. (Leonard Cohen)

As cicatrizes são as marcas do passado impressas no corpo e na alma, que não nos deixam esquecer as aventuras e desventuras por que passámos. Os joelhos esfolados em criança muitas vezes nunca saram, e na memória ficam as histórias de cada pedaço de cicatriz, que muitas vezes se unem. Cada joelho tem uma história, quase sempre associada à desobediência, a corridas loucas e a brincadeiras que nos pareciam sempre inofensivas - quando somos crianças acreditamos que podemos voar e não há limites de alturas, saltamos sempre de mais alto. A cabeça, essa, nunca parti, tive essa sorte, porque vi partir muitas, mas as minhas pernas eram sempre uma vergonha, entre cicatrizes, feridas e crostas arrancadas. Nada que ficasse bem a um menina, mas o facto de haver mais primos rapazes convertiam-nos em maria-rapaz num instante, éramos só duas.

Era subir às árvores, todos juntos, todos ao mesmo tempo, porque o juízo não vinha de lado nenhum. Aprender a andar de bicicleta descendo uma rampa enorme que ficava já longe dos olhares de qualquer mãe ou tias atentas, que acabava no fim do mundo, com um pedregulho enorme que eu não soube contornar! Não sabia andar de bicicleta, era o que era, também não foi assim que aprendi, mas com a Inês, na bicicleta do Gonçalo, à noite, depois do jantar. Ela agarrava-me para não cair, mas quando largou eu não caí! Caí foi depois, de orgulho, quando percebi que já era crescida como eles e sabia andar de bicicleta. É o melhor presente que se pode ter, uma bicicleta! O meu pai deu-me uma, depois, com um cesto cor-de-rosa e uma campainha! É o primeiro transporte para a liberdade, o segundo para a asneira! Apanhávamos amoras em silvas impossíveis de alcançar, debruçando-nos sobre o muro e acabando por cair par lá. Correr, correr, subir às árvores e acreditar que o amanhã chega, e com ele mais brincadeiras, mais bolos e doces, a marmelada da avó, pão com manteiga e açúcar que só ela sabe as quantidades para ser delicioso, uvada e geleia. À noite, se nos portássemos bem, às vezes, podíamos comer uma ginja da ginjinha que a avó fazia, meticulosamente tirada com um palito gigante.

A minha infância foi muito feliz, num mundo de muitas brincadeiras. As brincadeiras no quarto escuro, de que alguns tinham medo, muito medo - eu não! O correr pela casa, passando pela sala de jantar que abanava o chão e fazia um barulho metálico de que tínhamos medo à noite e, às vezes, durante o dia! Mais tarde, quando nasceram as minhas irmãs, o quarto das birras da minha irmã, a sala onde ficava com a minha mãe a ver televisão, onde fazia desenhos a amarelo torrado, a minha cor favorita! Os meus cães, O Tin-tin e a Flica, que morreu e me deixou muito triste. Os periquitos que nunca duravam mais de uma semana, até eu desistir de os ter. As frutas que íamos comer directamente da árvore - ainda hoje faço isso com as nêsperas! Como todas ali debaixo da árvore. As incursões ao sótão para ver brinquedos antigos e mundos antigos. As histórias que se contavam, de um túnel que ia ali de casa até ao castelo de Óbidos, e que nunca descobrimos, a cave que nunca encontrámos, com duas arcas - a do tesouro e a da peste e que se dizia que a minha família nunca abrira, por medo de abrir a errada. A cozinha de onde saíam os manjares dos deuses, feitos por qualquer um – ali, todos e todas tinham mãos de fada. As malaguetas que alguém comia - era eu, mas que ninguém acreditava, até me verem comer uma série delas durante um jantar, inteirinhas e secas. E sem beber água, que eu era forte! Os banhos à meia-noite, no Baleal, que a minha mãe me levava a tomar muito de vez em quando! O primeiro dente que me arrancaram da boca, ali mesmo em frente à praia. Recordações... cicatrizes felizes!

Os sonhos de uma infância feliz, de brincadeira e aventura, como só os livros dos Cinco um dia me contaram. Acho que vivi um pouco de todas essas aventuras, no campo e na praia. Sempre em segredos, sempre em correrias, sempre felizes, a saltar de rocha em rocha! Ai, a vida de criança é tão feliz, pura e inocente que, quando crescemos, é bom lembrar e guardar as cicatrizes que nos ficam no coração e na pele, uns joelhos eternamente esfolados, todos ou só talvez no sítio abaixo dele. Ainda hoje, quando nos juntamos, somos um bocadinho crianças e fazemos da nova geração as cobaias das nossas brincadeiras, a quem teremos todo o gosto ensinar. Trepamos às árvores, atiramo-nos à piscina e corremos atrás uns dos outros. Estas cicatrizes são as melhores páginas dos livros da nossa vida, a melhor recordação desse mundo feliz.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Construir castelos

Ainda a propósito de pedras no caminho, mas falando delas noutro sentido, hoje chegou-me esta mensagem ao e-mail e não posso deixar de partilhá-la com os meus navegantes.

Não podia ser uma síntese mais perfeita do que é a vida, nesta paciente aventura da construção dos caminhos, das casas e dos céus que estão por cima de nós! É este poder de autores da nossa vida e dos nossos cenários que nos dá alento para mais dias - se possível, felizes! As nuvens, essas, é soprar com força e desaparecem. Gosto da ideia de construir castelos com as pedras que aparecem, ou que pomos, no nosso caminho! Talvez um dia, consiga construir um castelo como de Óbidos!

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. (...) Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.


Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Nota: primeiramente, este texto apareceu, aqui no blogue, com a autoria de Fernado Pessoa, mas graças ao aviso da Madrinha, retirei essa nota. O autor não sei quem foi, apesar de já ter andado a investigar, mas mantém-se a mensagem.

domingo, 21 de outubro de 2007

Uma romã no Outono

Ainda a tentar ter um Outono, mesmo que ele só me aconteça ao fim da tarde, ou num passeio pelo campo a pisar as folhas já secas dos plátanos, a verdade é que já sinto a brisa mais fria de um tempo mais frio! Ainda bem, à noite pode-se acender a lareira, mesmo que seja só por capricho, mas vale a pena queimar o 'gesto' de que falava Camões e deixarmo-nos perder nesta atmosfera ainda dúbia! Mais uma fruta de Outono, esta para comer à medida que o tempo passa e, se for no campo, melhor, porque aqui o tempo passa infinitamente mais devagar, como se não passasse.

A romã tem uma importância milenar, associada ao amor, à paixão e à fecundidade, aparece desde os textos bíblicos. Os gregos tomaram-na como símbolo do amor e da fecundidade e consagraram a sua árvore a Afrodite, pois acreditavam nos seus poderes afrodisíacos. Eu adoro romãs, demoram a descascar, mas vale a pena... semente a semente, vamo-nos enchendo de amor!