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sexta-feira, 27 de junho de 2008

Férias

Chegaram as férias...

Se eu voltasse a nascer, e
as minhas mãos me ensinassem o caminho
que vai do coração ao mundo, e
os meus olhos me abrissem o círculo
que o mar desenha no horizonte,
e o meu nariz respirasse a luz que a manhã
solta de dentro da névoa, e os meus lábios
pedissem o pão de estrelas que as aves
trocam entre si, e os meus passos me conduzissem
para onde ninguém precisa de voltar,
o tecido da minha vida seria transparente
como o vidro da janela que não abro,
o fio que vou puxando seria eterno
como os números que contam os dias de um deus,
a tesoura da noite ficaria na caixa
que não precisei de abrir. Se eu voltasse
a nascer, e as velas do sonho me envolvessem
com o linho do seu vento.
Viagem, Nuno Júdice
Volto dia 6 de Julho

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Diário de viagem


Dias de sol. Acordar pela manhã, com os raios a rasgar as riscas verticais do cortinado e a fazer despertar as almas mais quietas. Apenas acordar. Esperar pelo pão quente e o jornal, ainda o sol se começa a levantar. Desfazer as malas e encontrar a roupa de praia. Sair para passear como se navegássemos pela madrugada dentro, no caminho para a manhã de luz. Procurar o lugar ao sol numa esplanada virada para a marina. Voar com as ondas do vento até ao abrigo da piscina, sempre tão azul, tão fria, mas quase só nossa. Entre braçadas, mergulhos orgulhosos e fotografias de sorrisos, vamos deixando que o dia passe, que a tarde chegue enfim, para cairmos em quase sestas de fim de tarde em frente ao mar de que temos saudades infinitas. Ouvimo-lo murmurar, chamando por nós, mas a areia quente canta mais alto e ficamo-nos por ela. Jantar fora, tarde, sem horas, e deixarmo-nos cair na cama, como crianças que todo o dia correram na praia, atrás da bola, a fazer castelos de areia, a saltar as ondas e dar mergulhos, como golfinhos em alto-mar.

Acordar de novo e despertar para um novo dia, com o mesmo entusiasmo dos dias repletos de surpresas. Os presentes, as alegrias e novos sorrisos infantis que vêm ao nosso encontro. Como são puros os sorrisos das crianças. E que saudades desses dias em que a água nunca estava fria, em que o vento nunca despenteava, em que corríamos ao lado do mundo, ao mesmo ritmo, às vezes mais velozes.

Passear ao fim do dia, vendo o recolher das andorinhas em voos rasantes, um último mergulho, seguido de uma corrida para o banho de água quente numa banheira à nossa espera. E o mundo quase parado, apenas a navegar, numas horas que quase não passam.

Olhar o corpo bronzeado e ganhar coragem para o vestido e para os saltos altos. Sair para jantar e a acabar a noite, quando já vai grande a madrugada, a dançar na pista. A noite pára, chega a hora e amanhã já é dia de voltar.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Contagem decrescente... 2, 1, 0!

Desejos

É já hoje a partida para terras do sul, mas parece que as horas não passam, que os ponteiros não avançam. É sempre assim. Quando queremos que o tempo passe, ele não passa, quando o queremos eternizar, ele acelera e corre veloz contra os nossos ventos e marés. Temos de o saber contornar, ou enfrentar de espada em punho.

Vou para a praia e para um sol que espero que não fique entre as nuvens, ou escondido em manhãs de nevoeiro. Quero a sombra da espreguiçadeira para pôr as leituras em dia, uma mesa de esplanada virada ao mar, num fim de tarde, para ressuscitar a correspondência. Os jantares no pátio num quase verão quente, ou uns jantares até quase a madrugada. E acabar a dançar numa qualquer pista até ser dia.


Bom fim-de-semana a todos e até Domingo!


(O Extremo Sul - José Miguel Wisnik, roubado à Porta do Vento, sem autorização, para comemorar um ano de ventos e brisas!)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Bom fim-de-semana...


Sei apenas que vou. Ainda não sei para onde, com quem, nem quando. Sei apenas que vou.
Caminho por dentro
de ruas que o rio
deixa cor de vento
na maré vazia.
(in Ruas Anfíbias de David Mourão-ferreira)


Bom fim-de-semana.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Bom fim-de-semana...

Prometeram levar-me aqui amanhã...


E amanhã não seremos o que fomos, nem o que somos.
(in Metamorfose de Ovídio)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Momentos perfeitos


('Viajante junto ao mar de neblina' (1818), por Caspar David Friedrich/ fotografia de PC)



Há na vida momentos em somos tudo e nada. Em que somos um quadro, uma música, uma fotografia. Quando cheguei a esta ponta da ria, algures na Costa da Morte, foi deste quadro que me lembrei... momentos perfeitos!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Noite de regresso...


Chegar exausta, desejar uma cama e uma almofada alta. Voltar a pôr música, um Oceano Pacífico, num serão como os de antes, em adolescente, ficando à espera que ele passasse para que eu me fosse deitar, o meu despertador do sono, toque para fechar o livro. Tantos livros cantados, amantes de uma noite só, muitos roubados, noite após noite, da estante de meu pai, por os julgar ainda proibidos. E eram! Ou então os recomendados no dia, comprados no dia, lidos na noite, tal como o peixe fresco que se compra na praça, de manhã, para o jantar. Ainda cheiravam a novo e tinham o toque de fechado, com os segredos por revelar. Os outros, os que roubava e lia depressa, escondida debaixo da cama, cheiravam a antigo, e tinham o toque das folhas amareladas pelo tempo. Cheiravam às estantes do meu avô.

É essa a minha companhia desta noite, um livro já começado, que viajou comigo até à Galiza, mas que pouco se revelou ali, trocado por um de poesia, mais amigo das leituras no mar branco. No conforto da manta, da cama, das almofadas, sempre muitas, relembro esse passado que me parece tão distante. Mas afinal não...




Nessa hora, poucas coisas me fariam levantar, só duas mesmo – fome ou desejos de um poema, que vai reaparecendo em alguns versos na memória, mas eu quero-o todo, por inteiro. A miopia leva-me a trocar o Caeiro pelo Campos no alto da estante de poesia e a preguiça a entregar-me às Odes, ao Opiário e à Tabacaria, ao invés do Guardador de Rebanhos, que tanto queria, porque "pensar incomoda como andar à chuva", chega mesmo a doer, como se caísse em bategas. Vence-me o cansaço de uma viagem, de um sonho e de um caminho quase tão grande como a volta ao mundo.




E assim adormeço.

Voltei...


O frio especial das manhãs de viagem,
A angústia da partida, carnal no arrepanhar
Que vai do coração à pele,
Que chora virtualmente embora alegre.


(Álvaro de Campos)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Volto já...

O Cais vai de férias até quarta, deixo-vos dois presentes:

- uma música para dançar...


(Amy Winehouse - Tears Dry on Their Own)


um poema para recitar...

Eu quero amar, Amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele o outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder...Pra me encontrar...

("Amar" - Florbela Espanca in Amor é Poesia)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Saudades...

Em memória de uma viagem a Trevélez...
Fotografia encontrada aqui.


A casa da saudade chama-se memória: é uma cabana pequenina a um canto do coração.
Henrique Maximiliano Coelho Neto - escritor brasileiro (1861-1934)

Oh Soledad, dime si algún día habrá
entre tú y el amor buena amistad.
Vuelve conmigo a dibujar las olas del mar,
dame tu mano una vez más.
(Oreja Ve van Gogh - Soledad)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Sé que volveremos...


Madrid parece já estar tão longe e ainda ontem chegámos. Foram quatro dias memoráveis. Embora o Outono lá arrefeça os corpos, coisa que já vi que por cá continua sem o fazer, consolou-me aquele sol brilhante do Jardim del Buen Retiro e da Plaza Mayor, que aquece qualquer coração.

Mas Madrid tem sempre aquele encanto, aquela alegria de chegar mais uma vez… acho que pela oitava! E desfrutar, sem pressas, sem horários, sem compromissos… quase como pairar sobre a cidade, vendo tudo e todos, fazer parte, entrelaçar entre as ruas do Lavapiés, calquinhar o barrio de Salamanca cheio de niños pijos, acabados de sair da missa dominical, entrar e sair das tiendas em que nos dê ganas , procurar meticulosamente os sítios de almoço e de jantar, e de tapeo… Encontrar a a minha tia e ter o prazer de almoçarmos juntos… comer pulpo, calamares, tortilla e pimientos padrón – unos picán otros no! Jantar com os amigos, em casa, com a lareira, bom vino e muitas anchoas… uns amigos que nos recebem sempre bem!

Querer ver tudo e estar em tudo… viver como madrileños até tarde, mas acordar cedo, seguindo a velha máxima de que deitar tarde e cedo erguer dá para ver tudo! Andar a desoras da maioria dos transeuntes - ir ao Prado de madrugada e levar o pequeno-almoço para a cola, levar sempre o El País para poder ter algo que leer, beber muito vermouth de grifo em qualquer sítio, mas melhor que seja no Anciano Rey de los Vinos, onde põem umas tapas óptimas, mas onde não resisto às bravas. Nos entretantos, ir fazendo uma lista mental de tudo aquilo que temos de comer e onde, para não deixar passar nada! Beber muitas copas e comer muitas tapas, passear muito até não poder mais e descansar nuns braços abertos ao som de música cubana. Tentar acabar a noite com um chocolate quente e churros, mas não resistir a mais um mojito, para dar forças para o caminho de casa. Mas ainda dá tempo de dançar no meio da Plaza Mayor a Balade pour Adeline, que alguém toca numa espécie de xilofone, passar os dias a ser perseguido pelas Feuilles mortes e achar que isso é uma coincidência feliz. Subir à cúpula da catedral e ver Madrid de cima, como um voo da codorniz, sobrevoando a Plaza de Oriente, mesmo em frente Palácio Real, e pousar sobre um banco do jardim entre duas estátuas de anteriores reis, não conseguindo imaginar que estas tenham podido estar, originalmente, no telhado do palácio. Mas saber que o melhor de tudo é dançar La vie en Rose e fazer poesias ao vento...

Arranjar os dois últimos bilhetes para o musical dos Mecano e cantar as músicas todas, ou pelo menos as que sabemos! Perceber que a loucura da movida madrileña é contagiante e que se pode aguentar se forem quatro noites e mesmo assim acordo a cantar 'Hoy no me puedo levantar, el fin de semana me dejo fatal; toda la noche sin dormir, bebiendo, fumando y sin parar de reir…' O que nos leva a beber Campari con Naranja no intervalo enquanto Nacho Cano (él mismo!) nos dá um autógrafo! Mas ter a certeza que é possível seguir outros motes e 'hacer lo que podamos por cenar perdiz', no Botín. Não deixando por isso de resistir às croquetas e às almejas… quase à meia-noite, com o restaurante quase privado, sem ter reserva mas ter um sorriso que conquista qualquer camarero e que não fez a desfeita a esta niña!
Antes disso ainda aproveitar um chiringuito aberto e tapear um pouco mais, uma cecina de León (ai que saudades das Castilla e León!) e una tapa de bacalao con aceite de oliva, se bem que ainda haja uns sortudos a quem regalan una tapa de cabrales!

Passar horas na exposição da Paula Rego a ver cada pormenor em cada quadro que nos arrepia, porque há sempre um pormenor que confrange e que destrói a candura de alguns contornos e gestos. A presença do elemento animal, metáfora de uma animalidade maior do ser humano, mas também máscara para uma realidade demasiado dura. A pintora diz que resulta mais com rostos animais. Adorar os estudos dos quadros, por ser tudo mais pequenino, até aquilo que nos perturba. Gostar do quadro do Baile, mas gostar mais ainda dos estudos para esse quadro e de saber como Paula Rego o foi criando, e de o saber pela voz dela. Saber que a seguir ainda podemos subir e ver Dalí e Miró, passar só para ver aqueles de que gostamos mais! Comprar todos os postais de todos os quadros que me encantan e oferecê-los a quem me encanta também! São pinturas com poesias dentro…

Subir a Castellana até à Fundaccion Canal, mesmo ao lado das torres inclinadas só para ver a exposição – Ocultos - una exposiccion preciosa cujo mote é: 'Si la cara es el espejo del alma, no existe nada tan corporal, tan carnal como el culo'. Vale pelas imagens e por toda a disposição das fotografias, com uma decoração particular, merecedora de elogios e de visita!
Saber que antes de voltar para casa, ainda há tempo para ir ao Círculo e ver os Momentos Estelares - la fotografia do século XX, uma parte de uma grande exposição de fotografia, muito bem organizada e bem explicada, para os menos entendidos na história da fotografia!

E no fim, a melancolia do regresso, sem deixar de passar pelos sítios onde fomos felizes… em quase todos… em Madrid...