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sexta-feira, 6 de junho de 2008

Serias tu?

(Encontrada aqui)

À S., doze anos depois
Encontrei o teu olhar vagabundo por detrás do castanho luzidio dos teus olhos, aqueles que ainda lembro dos nossos anos de meninice. Já nesses dias trazias o olhar adulto, portal de um coração ainda menino. A tua pele escura e os modos em tudo diferentes dos nossos, mais bruscos, mais revoltos, pouco habituados às meiguices da infância que sabíamos não teres tido, traziam as marcas de uma história em que o 'final feliz' não parecia para breve. Eras a heroína de uma vida que cedo virias a perder, ao perderes-te pelos caminhos que não te souberam ensinar.

Abandonada no berço, criada entre tantas iguais a ti, menos bonitas, bem recordo, mas iguais na revolta, na mágoa e na vontade de largar tudo e fugir. Assim fizeste e logo te perdemos o rasto. Ainda te viram, anos mais tarde, de criança ao colo, ainda menina como nós, a pedir à porta da igreja. Quando cheguei, já não estavas lá. Vives fugitiva entre mundos, escondida dos que te querem apanhar e nada te souberam dar quando pediste. Vida cruel a tua, menina abandonada à sorte de quem te quisesse adoptar, pegar ao colo e tomar-te como filha. Mas tinhas o rosto escuro de mais, a pele quase negra e um jeito de cigana que dizias ser a tua má sorte.

Abandonou-te também a vida e largou-te na rua, a sustentar com o próprio corpo ainda menino, tão pequeno como o nosso, uma vida vulgar e infeliz.

Hoje, não sei onde vives, o que é feito de ti... mas, no outro dia, naquela rua fria, naquela sombra do outro lado da rua, quase tenho a certeza que eras tu. Não trazias mais o sorriso nem o brilho do olhar. Apenas esperavas, com ar exausto, que alguém te encontrasse, que alguém te levasse e te pagasse mais umas horas de vida.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Sem título

Era manhã e era chuva que caía sem parar, lá fora, do outro lado da janela. Era semana, queria antes o seu fim, para poder ficar a ver passar o dia, por entre as gotas presas na janela. Dia cinzento claro, como se tivessem pousado um véu sobre o sol. As árvores e a relva prateadas de gotas de chuva, caídas e perpetuadas em gotículas minúsculas, mas infinitas, porque o sol não as vem beber. Quero a madrugada inaugural, quero a manhã luzidia da Primavera que adormeceu nas suas tardes de sol e se deixou embalar pela melodia da chuva que cai sem parar. Às vezes, o sol abre um olho aqui, outro ali, e deixa que um pequeno raio atravesse a terra, bata numa janela, ilumine uma madeixa, reacenda uma paixão. Ínfimo raio de vida, que me alimenta e faz renascer para a manhã que nos espera, com a melodia do orvalho.

Quero o sol ameno da Primavera, o meio-dia quente com cheiro a quase-Verão e as tardes de passeio sob as árvores a começar em flor, brancas, amarelas, cor-de-rosa e ao fundo o horizonte a maresia. Quero as noites de mar ainda revolto, pousada sobre a rocha, fim do dia em melancolia de ilusões. Quero a madrugada infinita do amor e da paixão, da loucura, até um amanhã que nunca sabemos como irá acordar.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Provérbios em Janeiro...

(Janeiro, do Livro das Muito Ricas Horas do Duque de Berry)
Hoje fui tomar café com a M., ela que até há bem pouco tempo estava sempre a dizer provérbios e a invocar a Nossa Senhora não-sei-das-quantas. Foi por causa dela que me lembrei de trazer aqui um pouco de cultura popular...


Comer laranjas em Janeiro é dar que fazer ao coveiro. Comer só tangerinas e beber só suminho acabado de espremer!

Em Janeiro sobe ao outeiro; se vires verdejar, põe-te a chorar, se vires nevar, põe-te a cantar. Há dois anos nevou e que bem que cantámos!

Em Janeiro, cada Ovelha com seu Cordeiro. Terei de mudar de apelido?

Em Janeiro, um Porco ao sol e outro ao fumeiro. Sandy, para quando uma matança?


Janeiro fora, cresce uma hora. Os dias começam a crescer... até à semana em que até sexta-feira tem pôr-do-sol!

Janeiro geoso e Fevereiro chuvoso fazem o ano formoso. Se assim for, por mim, pode até nevar...

Janeiro molhado, se não cria o pão, cria o gado. Não gosto de chuva... mas um bom bife...

Luar de Janeiro não tem parceiro; mas lá vem o de Agosto que lhe dá no rosto. Sim, era 31 de Julho, mas já passava da meia noite!

Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro. Como os primeiros, diria!

O mês de Agosto será gaiteiro, se for bonito o 1º de Janeiro. Não foi bonito, foi lindo! Gaiteiro, gosto, desde que não seja velho!

Pintainho de Janeiro vai com a mãe ao poleiro. Pinto não, codorniz!

Seda em Janeiro, ou fantasia ou falta de dinheiro. Depois do Natal, só compras na loja dos trezentos.

Vinho verde em Janeiro é mortalha no telheiro. Nada disso, em Janeiro só champanhe!


Sapato branco em Janeiro é sinal de pouco dinheiro. E o que faço às bailarinas brancas que comprei nos saldos?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Regresso...


Voltei a bom porto....

Depois de quase uma semana sem acesso a este maravilhoso mundo da Internet só tenho a dizer que tive saudades!

P.S. Dedico esta entrada à Sandy, para que a fotografia a inspire...